11 de setembro de 2012
Na BR
Enquanto passa na frente do carro percebe que o último acelera enquanto ele ainda está passando.
Conclusão: bicicletas funcionam tal qual uma capa da invisibilidade.
25 de outubro de 2011
A príncipa adoecida
Convidou desde os três reis vizinhos até a rainha das fadas, contanto que só houvessem nobres, todos estavam convidados. Convidou também a velha guardiã das realezas divinas, Gotiha, que era a única nobre que não morria, devido a feitiçarias diversas que auto-aplicava diariamente. Este convite, por si só, representava a grandiosidade do evento, pois desde que o rei Optin nasceu não se via Gotiha no reino.
Acontece que Gotiha nutria das mais tenebrosas máguas pela família real. Esperara durante todos estes anos para ter uma oportunidade de os amaldiçoar. Agora tinha finalmente sua oportunidade.
O rei queria que seu filho fosse homem, para reinar absolutamente sobre todo o reino (e, quem sabe, mais), mas Gotiha iria se certificar que fosse uma menina. Ao invés de um príncipe, uma princesa, e a criança ficou conhecida como a príncipa Icéra Optin, sendo chamada de príncipa devido ao tratamento de seu pai, que nunca aceitou que seu único filho fosse uma mulher.
Eis a maldição de Gotiha sobre Icéra: quando esta fosse pedida em casamento (os nobres muitas vezes já nasciam com casamento marcado, para fortalecer o nome da família com uniões entre famílias nobres), a príncipa adoeceria de uma doença devastadora, portanto mortal, que não seria a causa de sua morte, mas a de todos que ousassem aproximar-se dela. Como todo feitiço mencionado nesta época, havia uma maneira de quebrá-lo, e Gotiha não guardou segredo: a príncipa Icéra deve conhecer o verdadeiro amor nos braços de um plebeu, só assim ficaria sã pelo resto de sua vida, não mais adoecendo.
Aqui chega a parte que me parte o coração, pois não sei o fim da história exatamente. O historiador Cardior de Pauli diz que a princesa nunca marcou casamento, portanto nunca adoeceu. Segundo esta versão ela cresceu e lutou nas duas guerras que seguiriam saindo sempre vitoriosa, morreu em batalha com uma flechada sobre seu peito esquerdo. Já o historiador Mheglireu Pane, com seu estudo detalhado das famílias da época, conta que quando completou 21 anos (ou seja, já velha para marcar o casamento), Icéra foi pedida em casamento por um príncipe estrangeiro (que não conhecia a lenda), portanto adoeceu e levou o reino às ruínas, com alto índice de mortes entre os nobres e quem mais se aproximasse. Mheglireu traduz um documento da época, supostamente escrito pelo nobre Liasiv Eroateria, tesoureiro real,
14 de outubro de 2011
Luzes
Se as criaturas da noite adoram e se fortalecem com a luz de uma maravilhosa lua cheia, nenhuma delas estava disposta a um passeio naquela noite. Não havia lua, não havia luz natural. Casas exibiam suas varandas acesas, outras não, como uma sequência sortida de luzes nas vizinhanças. Mas, definitivamente, o mais notável era o esforço daquele par de postes que insistiam bravamente em enviar mensagens de alerta, em código morse; conversavam entre si, cada qual em seu lado da rua, um um pouco antes e o outro um tanto depois da casa de Juliana, a maioria dos demais postes adormecia, de folga.
Quando voltava o olhar para sua casa, Juliana sentia o peso daquela presença alheia e uma imensa estranheza com o próprio lar. Quando olhava ao redor, percebia os dançantes arbustos e árvores que felicitavam sua vulnerabilidade. Às vezes, um ou outro conjunto de folhas se uniam para formar rostos e silhuetas ameaçadoras, outras vezes, o espaço vazio entre as folhas formavam olhos e janelas por onde se busca sempre ver o que está além, como se esperasse algo ou alguém surgindo de lá.
Alguém, "algum vizinho acordado a esta hora?", manda o cachorro se calar, chiando, sussurando. De onde? Desta, daquela, de que casa? Não havia ninguém ali, exceto ela girando e temendo a madrugada, como se certa de que algo aconteceria, certa de que nada podia fazer, exceto, talvez, esperar sua hora. Volta a escutar o cantar do pássaro da morte, "deve ser uma coruja", vinda de sua casa, onde aquela presença lhe esperava - vem, menina, entra; aqui você vai poder dormir em paz, conosco será bem cuidada, se entrega - por que a presença se considerava no plural era a questão que parecia mais terrível da mente de Juliana.
Depois de algum tempo sob o céu sem lua, faziam dois ou três minutos que o poste havia desligado, Juliana nota que as estrelas estavam mais brilhantes do que custumava lembrar. A vastidão do universo nos dá ainda maior medo, de lá pode vir de tudo a qualquer hora, e não há muito o que se fazer. Parece, no entanto, que estar de baixo de telhas nos protege de alguma maneira, ao menos na nossa mente nos sentimos seguros. Ali, entretanto, com todos aqueles olhos cintilantes lhe observando, Juliana pensou que eram deuses guardando-a "de todo o mal, amém" e se sentiu segura. Sobrara um último cachorro latindo distante, a algumas ruas atrás, e a "coruja" parecia ter se acalmado, pois se passaram dez ou quinze minutos em silêncio.
A harmonia parecia estar se completando, o medo estava se dissipando e Juliana estava fazendo as pazes com a natureza, tentando até recordar qual a última vez que contemplou de maneira tão profunda todos aqueles fenômenos naturais que passavam já despercebidos nas noites dela - talvez tivera sido com um antigo namorado, quando ele a levou à praia de bicicleta, noite linda e amor juvenil. Já estava se tornando muito estúpido ficar parada na rua com a porta da casa aberta, e os deuses de alguma maneira espantaram aquela forte presença. "Daqui a pouco o sol vai nascer".
Foi aí que ela ouviu pessoas chegando, riam, gargalhavam, escarniavam em voz alta. Talvez o sono não a tivesse deixado perceber o quão próximos elas estavam (ou talvez elas só se fizeram notar depois que dobraram a esquina) e Juliana notou que eram todos homem, bêbados ridículos errando e atacando tudo o que vinham com zombarias sem fim. O medo tomou-lhe outra vez. Não fazia sentido nenhum está de bobeira no meio da rua podendo ser atacada a qualquer hora por pessoas reais, entidades que realmente existem; se sentiu extremamente infantil por ter saído de casa.
Pra encerrar com chave de ouro, "agora é tarde madame", quando ela dá seu primeiro passo pra se salvar, o poste apaga - quando foi que a lâmpada tinha acendido? - e não deu outra: ela travou, ali, no escuro do poste. Não tinha como se mover: era pressão demais. Se saísse dali eles iriam notar que ela estava com medo e poderiam fazer qualquer coisa, qualquer maldade. Mais uma vez ela se entregou à sorte, mas nem tem como descrever o que ela pensou, a mente tava em branco, esperando. Ali a ameaça era real.
Eles eram oito.
Cinco dos quais estavam de calça djeans.
Três estavam de bermuda.
Dois estavam de boné, o mais tagarela inclusive.
O mais bonito olhava para ela, desde que o poste se apagou, talvez querendo distinguir as curvas no rosto dela, talvez perguntando a si mesmo se deveria aproveitar esta oportunidade para abordá-la, ou daria mais alguns passos.
Eles vinham chegando, andando na direção dela.
"Meu Deus! A porta de casa está aberta!".
Eles vinham abaixando a voz, observando aquela mulher e se calando um a um, o tagarela por último terminou com uma pergunta vazia, parecia até retórica.
Este era o momento em que eles cruzariam com ela, talvez a metade deles faria um movimento e a outra metade outro, encurralando-a. Estavam quase frente a frente, ela observava que um deles estava fumando, tinha aspecto mais velho e sério, nada tinha falado. Ele olhava para ela com rigidez e não desviava o olhar. Ela percebeu que ele ia falar, ele ia dar voz de assalto, sabe-se lá o quê.
Ligou: o poste foi mais rápido!
Foi impressionante!
Foi indescritível aquela sensação.
Por um instante todos os rostos se descobriam completamente iluminados pela luz daquele poste (que parecia responder a passos próximos): o do boné vermelho, o bonito (que nem era tão bonito assim), o da calça xadrez, o de camisa amarela, o tagarela (que era o mais bonitinho), um cara que não dava pra ver, estava atrás dos outros, o baixinho barrigudo e o tenebroso fumante, que não se sentiu nem um pouco intimidado pela luz e prosseguiu com o gesto labial:
-- Boa noite!
A que todos os amigos repetiram a saudação. E, por fim, também ela. O tenebroso fumante se tornou o charmoso fumante, depois que passou. "Bom dia seria mais apropriado", o sol nasceria daqui a uns quarenta e cinco minutos. Sem querer demonstrar que estava apavorada de medo, ela se segurou parada no poste até o bando tomar mais distância - imensurável dizer qual com o sono que ela tinha ali.
Ouviu a gargalhada que o barrigudo deu, "hahaha! Vocês morreram de medo", "É claro, uma pessoa escondida no escuro, parecia que tava esperando pra mostrar um revólver", "Eu nem tinha notado, vocês foram ficando tensos eu parei de falar...", "Todo mundo sabe que tu é lerdo", "Rapaz, com isto o álcool todo foi embora". As vozes iam diminuindo...
Ela se recompôs de tamanho susto. Poderia ter morrido, sido assaltada, pra não contar coisas piores, estuprada, sabe-se lá! Com as pernas tremendo conseguiu vencer a inércia do corpo e atravessou a rua, entrando em casa e acendendo não só a lâmpada do quarto, também a da cozinha e a do corredor que dá para a área de serviço, iluminando a mesa central da sala com quatro focos diferentes de luz. Voltou à porta de casa, passou a chave dando duas rápidas e resolutas voltas, e afundou na cama, hoje não importa a conta de luz.
15 de junho de 2011
Natasha
Ao ouvir meu pedido, meu pai coçou o cabelo e sorriu.
-- Temos que inventar uma desculpa para sua irmã, afinal, ela vai querer sair também -- Foi a única coisa que ele disse.
Aquela noite não foi diferente das noites contadas pelo meus amigos, na verdade eu até havia colocado muitas espectativas nela. Entretanto, naturalmente, eu sai de lá satisfeito, tentando mostrar-me como o mais novo homem da sociedade carioca.
Eu lembro que depois de tudo, quando voltávamos para casa a pé vendo o nascer do sol, meu pai me contou uma história que eu jamais viria a esquecer.
"Existem pessoas no mundo que abusam dos sentimentos alheios, que se acham conquistadores de tudo e de todos, mas não planejam cumprir com seus deveres, apenas se aproximam, brincam conosco e depois vão embora, isto sempre nos parte o coração. Estas pessoas parecem inofensivas, mas elas nos drenam a energia, devoram nossos corações e no fim, acredite, não resta nada. Talvez o mundo venha a ser vazio em algumas poucas décadas, meu filho; não vazio de pessoas, mas vazio de corações".
Lembro do rosto de meu pai iluminado pela luz laranja do amanhecer. Ele era para mim o exemplo mais perfeito de homem e herói. Embora um homem branco, contra aquela luz ele parecia escuro e cheio de energia, exibia o perfil de um deus dos céus, forte por natureza e sábio de espírito.
"Quando você for ver sua mulher, caro filho, deve respeitá-la e amá-la por inteiro, pois isto mostra que você respeita e ama a si próprio. Não seja como estas pessoas tristes que agem deliberadamente, elas estão perdidas no vale profundo da existência".
Com o passar dos anos, naturalmente, as palavras do meu pai, embora sempre na minha cabeça, perderam força diante de um mundo complexo e severo, mas as palavras dele nunca foram desonradas... Até agora!
Acontece que esta mulher apareceu. Branca como a neve, linda como a mais bela das sereias sonhadas pelos abstinentes marinheiros estrangeiros e também doce como mel de engenho, seus lábios eram como alucinógeno de prazer inexpressável e seu corpo era morno como o mais convidativo dos achocolatados em terra de inverno semestral. Esplêndida, fantástica, única em todo o mundo dos sonhos e em toda a realidade corriqueira. Se chama Natasha, e seu nome ressoa como sinos angelicais no céu eterno de amor e deleite.
Vê-la, por si só, é gozar. A vida perdeu todo o sentido a partir do momento que ela surgiu na minha vida, a partir do momento que ela me tocou, me chamou e me levou para o reino do sonhar, o verdadeiro reino do sonhar, onde todos os sonhos se misturam com a realidade. Eu não achei que aquilo fosse possível, nunca experimentei a sensação antes, mas infelizmente não há o que se fazer mais: nunca esquecerei aquela mulher e todas as outras se tornaram apenas outras. Natasha foi a única, em toda a minha miserável vida, que me tocou o coração, a única que o levou consigo e o guarda para sempre na terra do amor.
Agora eu reflito nas palavras de meu pai. Tudo indica que ela, aquela maravilhosa fada divina, brincou comigo como se fosse apenas seu passatempo, como se fosse apenas um quarto de hotel que ela usou para se alojar por um tempo. Ela partiu, deixou-me só, esquecido e esquecedor de tudo o que viera antes.
Me pergunto, oh pai, como devo viver agora, que minha única mulher se foi como se o vento soprasse sua direção? Não há motivação para mais nada nesta vida, tudo perdeu seu gosto e sua importância no meu viver, mas quando lembro daquele tempo com ela, pai, tudo brilha e é alegre novamente.
Que devo fazer, afinal? Amaldiçoá-la por me tirar o mundo de antes, ou abençoa-la por me mostrar o paraíso em terra?
2 de junho de 2011
Medo de escuro
Caminhando pela sala escura, viu um vulto pardo com os cantos do olho. Como todo vulto assustador que se preze, passou rápido e sem deixar barulho algum, alimentando a sensação agoniante de companhia e, mais ainda, de que há um observador paciente à espreita. Calculou que faltavam apenas poucos passos para alcançar os interruptores do quarto, mas resolveu assim mesmo apressá-los, e tombou com o joelho na pontinha da mesinha de sala. Toda uma dor elétrica circulou em sua perna e um desejo instantâneo e instintivo de sentar no sofá para se recuperar foi saciado.
Até então não havia som algum. Quanto mais o tempo passava mais evidente ficava o som da própria respiração no seio do lar inanimado. A luz externa dava contornos desconhecidos aos objetos da sala, especialmente às pedras manufaturadas de formado humanóide. Um espelho ao fim da sala deveria permitir ver parte do quarto, juntamente com a cama e o guarda-roupas, mas a luz não era suficiente para clarear tanto, se perdia em algum ponto empoeirado depois do espelho.
O cão da vizinha começou a latir. Animais sentem quando alguma coisa esquisita está acontecendo. Como uma rede virtual de comunicação, toda a vizinhança canina pôs-se a chamar a polícia, com latidos, mas só Juliana teve esta sensação. Alguma coisa estava errada! Alguém estava na casa! Por favor me ajudem! O grito tolo e rouco saia sem sair, por que era ridículo gritar por algo que não existe, ou que pelo menos não se sabia que realmente existe. Juliana cogitou simplesmente postular que havia alguém na casa e sair gritando para o socorro amigo de algum vizinho próximo, como fizera diversas vezes quando pequena, seja com um monstro no armário, seja com um duende debaixo da cama - "naquela época não era preciso ver para ter certeza de que estavam lá." Os únicos empecilhos eram seus joelhos que ainda reclamavam imobilidade e o orgulho -"não tenho medo do escuro".
Passados quase um minuto de paciência infinita ao som de latidos e com dor na perna, Juliana se levanta para ir ao quarto ligar a luz. Passou a ouvir o bater de seu coração, forçando sangue para o resto de seu corpo, como se este se recusasse a aceitar. Simultâneo ao seu passo escuta o cantar grave de um pássaro mensageiro - "vou morrer!". Ela estava ficando com os nervos à flor da pele, não dava para continuar aquela jornada sozinha. Juliana voltou para a porta aberta e saiu da casa.
9 de novembro de 2010
Super-dúvidas
A única coisa que vi, de fato, vendo, com os olhos da carne, foi um senhor que se chegou para sentar ao meu lado. Complicado isto é, já que poderia te-lo chamado de rapaz, uma vez que velho não era, mais velho do que eu certamente, mas isto entra no questionamento de como eu deveria ser chamado, se rapaz deixei de ser e senhor ainda estou longe. O senhor-rapaz ao meu lado sorriu e me mostrou uma chapa de ferro, dividida sutilmente por uma fenda longitudinal, destacando quase que imediatamente as duas partes como se a chapa fosse de plástico. Eu não entendi o que aquilo queria dizer e fiquei muito mais impressionado por uma pessoa de Campinas sentar-se ao meu lado num lugar público que oferecia diversas outras oportunidades de assento individual do que com a graça que o que chegou fez. Eu, com a testa franzida propositadamente, o olhei com atenção e simpatia, já que ele trazia aparência simpática. O senhor-rapaz me ofereceu a chapa de ferro com a mão esquerda, quando a toquei, verifiquei que se tratava se um material realmente deveras duro para se quebrar ou dobrar. Depois que me viu manuseando o objeto com certo carinho, o senhor-rapaz o pediu novamente e lhe entreguei, ao passo que ele tinha dobrado o material com o uso de apenas uma das mãos. Diante de provocação tão direta, improvável seria se eu, mesmo sendo de natureza leza como sou, não notasse que o senhor-rapaz queria que eu o fizesse um super-herói.
-- Você é mágico? -- Imaginei logo que a presença de semelhante criatura ou significasse que cobraria por serviços de distração, o que cabe a um mágico como aquele, ou que me apontaria convite para um espetáculo onde a alternativa anterior caberia mais convenientemente. Só pensei em dinheiro, confesso.
-- Não -- Respondeu o senhor-rapaz com ares agora menos, se é que eram antes, formais -- Eu gostaria de companhia. Esta tarde está deveras prazerosa para se passar sozinho e sem uma boa conversa. -- Agora, mais que antes, estava certo de que o mágico era na verdade um homossexual atraído por algo da minha descuidada aparência (cabelo a cortar e barba mal feita de quem não fez por que tinha prova na manhã do dia em que estamos e passeou pela Unicamp para esquecer de todos os esforços mentais de decoração e alienação estudantis), mas desde que não fizesse nada demais, não havia problema em tê-lo ali para uma conversa. Talvez eu deva me ater um pouco mais neste ponto, o de eu pensar ser o homem-rapaz um homossexual, porque não se tratou apenas de um reflexo preconceituoso oriundo da impressão de uma tentativa de um homem se aproximar de outro sem motivos outros que banais e, com toda a probabilidade, pessoais, mas mais ainda do uso do esteriótipo bem conhecido de que homem de voz fina e movimentos delicados tem apreço por homem de voz grossa e ares de macho. Tá certo, tudo isto cai também no preconceito; fui preconceituoso por achar alguma coisa quanto ao mágico (não note minha falta de modéstia).
Sentou-se observando cuidadosamente se a areia havia sido devidamente evitada. Ao encostar suas nádegas no banco de cimento, não despejou ali seu peso, como se cuidando de sentir o frio da pedra ou de esquentá-la antes de se deixar entregue, mas foi deixando lentamente o peso transferir-se dos pés e da mão esquerda que servia de apoio para a região do corpo que toca a cadeira quando o indivíduo senta corretamente. Parecia um velho. Não esperou muito para dizer o que viera dizer e o que será extensamente relatado nos próximos parágrafos, uma vez que pensei que seria interessante trocar a forma de meu relato de primeira para terceira pessoa e o farei com devida atenção a partir de agora e assim continuarei até que a coerência me obrigue a voltar para a maneira do início com o único objetivo de dar aquela sensação de que o texto foi bem fechado no último parágrafo.
José era seu nome, e travava consigo mesmo uma batalha interna de imensa importância para a sanidade do estado de São Paulo ou, talvez com a evolução das tragédias, para o país. Ele, o senhor-rapaz, dotava de poderes sobrenaturais que, como o nome sugere, está sobre os naturais. Podia mover facilmente grandes pesos e se movimentar com velocidade razoavelmente alta, desde que, claro, como todos os humanos já devem ter notado, tiver algum espaço para se impulsionar do estado parado, ou como insistem os professores de física, de Vo = 0, já que o importante não era a velocidade, mas a aceleração que ele era capaz de suportar e provocar em si mesmo. José cresceu como qualquer outro garoto, mas como tinha acesso a proezas únicas, passou a obter êxito de quase 100% nas investidas de assalto ao dinheiro de seus familiares, naquela idade da infância que os garotos não sabem distinguir o que é seu do que é dos outros em casa. Aqui deve-se duas retificações, a primeira é que ele nunca assaltou, a palavra correta, ou mais correta, seria roubar, já que ninguém nunca o pegou usando de ameaças com os outros de condições sub-sobrenaturais, segunda retificação diz respeito ao "quase" acima, não foi 100% só porque se o tempo não era suficiente para ir e voltar, então o garoto voltava de mãos vazias, e isto não é êxito em um roubo. O caráter do rapaz, como deu pra notar muito mal exemplificado acima, não era fácil de moldar por educações sub-sobrenaturais, mas a religião evangélica que empregava a cabeça sã de seus pais o ajudaram a criar noção de bem e mal, mas, como o é para grande parte dos que como ele é, diga-se assim, religiosos, fazer o bem pode parecer simplesmente não fazer nada. A inteligência do rapaz fugia de tudo o mais que acontecia com ele, quer-se dizer, era medíocre, mediana de maneira tal que provavelmente passaria em um concurso e viveria como metade dos que vivem no estado. Há aqueles, e é por isto que o futuro do pretérito se encaixa nas frases anteriores, que seguem seus sonhos, e o garoto quis seguir carreira de músico, tem banda e tudo, e mesmo que hoje seja um senhor-rapaz, ainda toca aquelas músicas que badalam adolescentes e se fazem presentes em seriados de final de tarde, aqui ou no México. José não é muito famoso, no entanto.
O senhor-rapaz já se apercebera de que a natureza é sábia, justa, ou seja lá o nome que se queira dar a ela, alguns dizem simplesmente que ela é "equilibrada"; seja o que for, se existe um ladrão, haverá de criar-se um policial, se existe um problema, há de criar-se alguém para dele livrar-se neste mundo desde que as profissões só existem para solucionar este ou outro tipo de problema. Há os indivíduos que optando por trabalhar do lado do problema, seja tomando vantagem das brechas seja as aumentando ainda mais, encaram a solução como problema e como agora trata-se de um problema, também este a natureza há de "equilibrar", gerando uma profissão que arque com ele, claro que estamos nos referindo aos vilões. Se existe no mundo alguém com sobrenaturais poderes, haverá de aparecer um sobrenatural problema, simplesmente usando da filosofia barata da "balança" que a natureza insiste em fingir manter. José assim pensava a meses e passeava pela cidade de Campinas com tal pensamento fixo na massa cerebral.
O sobrenatural José pensava que, se usasse de seus dotes fantásticos, acabaria por induzir no plano real um movimento restaurador com a aparição simultânea de um arquiinimigo. Se era assim, pensava que melhor seria se ele fosse o mal, para que surgisse um movimento restaurador bom e que o bom o derrotaria e assim ficaria para manter a sociedade a salvo de qualquer problema de ordem menor. Pensou também que ele, José, não deveria morrer, para que o outro ainda tivesse seu problema lacrado e a natureza não teria motivos para balancear o que já estava balanceado. Isto tudo pensou porque não era um músico de sucesso, esta conclusão se pode facilmente tirar pensando que se o fosse seria ocupado demais para pensar ladainhas, e tudo isto se tratava de ladainhas, já que se tirou conclusões demais ante um problema que nem se sabe se realmente existirá.
José estava ali, ao meu lado. Tinha dobrado uma tira de ferro duro e depois, diante de um pedido meu de tensionar o ferro como se faz com sacolas plásticas até se romperem, esticou o ferro até se fragmentar em um estrutura que lembra vagamente um tablete de ciclete esticado até se romper, as duas toras de ferro oferecendo infinitos pequenos vértices. Depois de contar toda a sua história de maneira mais interessante do que acima foi relatado, pois é complicado para mim reproduzir uma história que me foi contada ontem, em que alguns detalhes já me faltam pela memória fraca, José saiu correndo pelo terreno e em alguns segundos, dois talvez, já tinha desaparecido da minha vista. Eu pensei que talvez ele não fosse um homossexual, mas que ele tinha dúvidas, ah, ele tinha.
17 de setembro de 2010
Noite dos zumbis
Havia um senhor por volta de seus quarenta anos usando uma flanela para limpar o balcão que o circundava em cento e oitenta graus, e os bancos altos convidavam os recém-chegados a sentar. Sentei. O senhor trajava uma calça jeans e uma camisa de botão verticalmente listrada e parecia ser um camarada bastante simpático. Quando me viu sentar, ele foi impelido a se aproximar e perguntar sobre os meus desejos. Lembro que por uns segundos eu pensei em como lá fora estava frio comparado com aquele recinto aromatizado. Sem contraste, pedi uma Heineken gelada.
Antes de precisar piscar duas vezes eu tinha um copo americano grande e uma garrafa de Heineken embranquecida, além de um senhor com olhos bonitos me fitando como se esperando que eu desabafasse.
-- O que foi, rapaz: mulher?
Sem conseguir segurar o meu pequeno sorriso amarelo de "na mosca" balancei a cabeça afirmativamente e comecei:
-- Nossa relação está confusa. Não estou seguro se ela gosta de mim, sabe? Gostaria que ela se expressasse mais, mas ao mesmo tempo gosto do jeito subentendido dela, é estranho. Eu não sei o que fazer.
O senhor tinha um semblante seguro e bigodes lisos e marrons. Tomou um copo cristalino com as mãos e o mudou de lugar. Eu havia simplesmente parado de falar. Aliás, eu não havia ingerido tanto álcool para soltar meus problemas assim de bandeja para um estranho que acabei de encontrar. Ele já não olhava para mim e notei que ele deixou o ouvido esquerdo na minha direção, como se esperasse a continuação da história, mas eu simplesmente calei. Foi ele quem quebrou o silêncio:
-- Acho que seu caso está resolvido rapaz, é só ansiedade sua! Permita-me contar uma história que aconteceu comigo e que desejo partilhar com alguém. Acredito que minha história possa ajudá-lo a repensar a sua de outra maneira, se não, pelo menos o distrairá -- O bigode sorriu em parceria com os olhos castanhos que brilhavam. Aquele senhor então puxou um banco e se sentou quase na minha frente, do outro lado do balcão. -- Você conhece a história de Natasha? -- Eu balancei negativamente a cabeça.
"Sou um viajante de muitas e muitas caminhadas. Nasci longe, onde não se come, só se bebe. Quando pequeno me mudava constantemente até que minha irmã mais velha me deixou em um vilarejo para cuidar de porcos. Um dia o casal que era dono do terreno faliu, então eu vaguei pelo centro da cidade, onde trabalhei com os pedreiros. Nesta época soou pelas ruas a presença de Natasha. Eu, assim como você, estava desinformado a respeito de tão ilustre personagem de nosso mundo. Afinal de contas: de quantos outros estamos igualmente desinformados?
Passado algum tempo, comecei a trabalhar nos bares. Esta taverna aqui não é a primeira, mas confesso que é uma das melhores que já trabalhei. A primeira, exatamente a primeira, me ofereceu tamanha experiência que nunca nada será semelhante ou se igualará.
Era uma noite boa, de muita festa: a folia corria solta e todos os hormônios saltitavam pela chegada de um ilustre cirurgião à cidade, um figurão que sempre investiu bastante na qualidade de vida desses pobres cidadães. Havia um moça muito bonita que andava frequentando este barzinho agradável onde jovens senhores da literatura se uniam para cantar à alegria e ao amor de mulheres e pátrias. Ela era paqueradora de mãos cheias. Embora ela não se vestisse com vulgaridade, a um trabalhador da casa atento não passaria uma moça bonita, ainda menos uma que sempre se apresentava com diferentes cavalheiros. Como você sabe, meu jovem, o mundo é livre, eu mesmo não iria julgar a felicidade de ninguém.
Havia dias em que ela se deixava só no balcão com os olhos distantes e eu, assim como fiz com você, fui puxar um bom assunto para alegrar as horas monótonas da rotina repetida. De perto a garota tinha todas as qualidades que um homem deseja. A voz, os olhos, a pele... Até mesmo a temperatura de suas mãos (homem sempre consegue tocar a mão da dama quando realmente deseja): era tudo perfeito. Minha querida esposa ainda não fazia parte da família e eu estava livre para me aventurar com moças alegres e encantadoras como aquela.
Não sei por qual acaso do destino eu me ausentei de minha função por breves vinte minutos na noite que eu costumo chamar a 'noite dos zumbis'. Quando retornei, avistei nas paredes homens caindo vagarosamente e, à medida que eu ia voltando a vista para os que estavam mais próximos, todos tombavam e caiam absortos no chão.
Vi, e disto não me esquecerei jamais enquanto minha cabeça não parar, aquela dama maravilhosa e perfumada parada próxima à saída longíncua, me olhava, ponderando, acho, sua vinda até mim. Ela deu alguns passos charmosos em minha direção e Giovana, a cozinheira, chamou de súbito o homem que serve às pessoas, este era eu na época, e a criatura celestial parou o progresso da viagem e resolveu partir do bar.
Esta cena nunca me saiu da cabeça, sabe? Posso dizer que é tão nítida minha impressão deste momento que depois, acessando minha memória, recordo um perfil rubro de coração na mão daquela desejada dama, enquanto caminhava até mim.
Aqueles homens se tornaram obcessivos fregueses do bar. Procuravam aquela moça, uns para lhe fazer feliz, outros para amaldiçoa-la. Todos tiveram seus corações tirados do peito por aquela dama. Todos! Exceto um... Eu fui o único que fui salvo pelo santo chamado da cozinheira Giovana - naquele momento, é claro, eu não me dei conta de quão santificado!"
Depois de ouvir esta história, fiz algumas perguntas idiotas.
-- Esta dama da história era Natasha?
-- Sim, a própria. Onde ela passa deixa homens sem coração e corações sem corpos.
-- Por que ela faz isto?
-- Existem diversas especulações. Um amigo meu estava no bar naquela data e hoje vive sem coração algum. Sua idéia é que ela procura algum coração em especial, um coração grande o suficiente para saciar por completo sua sede por amor. Ele, como teve o coração roubado, não amará mais mulher alguma.
-- O que o senhor acha?
-- Acho que há diversas maneiras de tentar justificar a própria maldade...
Parei um pouco e percebi que estava realmente distraído com a história, meu problema parecia mais tranquilo e solvível. O senhor adivinhou:
-- Para você, meu jovem, eu diria que sofrer ou ser feliz são coisas que existem para te lembrar que você ainda tem um coração. Sem ele haveria apenas o vazio.
12 de junho de 2010
Batalha no Monte Negro
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Um senhor de barba branca estacionou no alto do Monte Negro e olhou atenciosamente cada detalhe da paisagens florestal que lhe era oferecida. Cada brecha que existe entre as folhas foi cuidadosamente analizada e o senhor já sabia o que fazer:
-- Eu já o encontrei, Milleto, porque tenta se ocultar na floresta?
Milleto, então, com a espada sagrada do Dragão Zarolho empunhada, aguardou um instante, respirou 2000 cm³ de ar puro da floresta e conjurou seu jutsu:
-- Mordida da serpente persa!
Como se respondendo ao chamado do ninja, uma onda de terra se formou devastando árvores e destruindo relevos. Ao adquirir a forma final de uma cobra gigante, a coluna de terra se moveu com astúcia na direção do velho de barba branca. Aquele senhor, cuja barba amarelava nas bordas, saltou rapidamente para desviar do choque inevitável entre os dois blocos de terra dura. Com o dedo indicador, reservando sua visão ímpar, apontou na direção de Milleto e lançou seu contra-ataque:
-- Tiro do Leopardo Branco!
Um brilhante e reluzente raio branco saiu do indicador do velho e seguiu em linha reta na direção de Milleto, e era tão veloz, que o atingiu em cheio. Devo citar que, quando alcança seu inimigo, o Tiro do Leopardo Branco estrala o som de mil tiros de espingarda enferrujada simultaneamente. Há relatos de sobreviventes a este magnifíco golpe, mas as testemunhas sempre perdem a audição.
"O velho é mesmo forte!", sussurra Milleto para si próprio, à distância. Aquela não haveria de ser uma batalha comum. Era a especialidade de Milleto usar espelhos e ilusões para confundir o inimigo, mas o velho já estava informado quanto a isto, de maneira que o barbado se manteve imóvel no cume depois de cair na poeira. Vislumbrava qualquer movimento entre grãos de areia - "talvez o garoto tenha se escondido em baixo da terra" - sua visão não tinha desvantagens na poeira.
Milleto estava muito bem preparado, afinal de contas, sua única missão era derrubar o grande e lendário Leopardo Branco das Montanhas do Sul. Trazia alguns de seus principais truques e, o melhor, seu orgulho completamente cheio depois do sucesso ao roubar a espada do Dragão Zarolho. Tinha a confiança e a velocidade necessárias para a vitória.
-- Eu não gostaria de me demorar aqui, menino -- Diz o velho quase que para si -- Mas sinceramente não acredito que esta vitória possa ser assim tão fácil, uma vez que você deve ter vindo preparado, não é? Astuto Milleto da tribo do Norte...
-- Antenor! -- Surge inesperadamente Milleto na base do Monte Negro -- Entregue-se e minha missão será cumprida, não é preciso haver mortes.
-- Não seja estúpido garoto! -- O velho surpreendido abre a palma da mão em direção ao missionário e dispara um raio neutro de energia branca. Com o choque do golpe sobe ainda mais poeira e o velho não pôde conferir se acertou, uma vez que sua mão estava na frente.
Derrepente, aparece Milleto com a lâmina de uma espada estranha bem diante de seus olhos, quase lhe dividindo o pescoço. "Deus, como eu não vi?", divaga o velho, enquanto atrás havia outro Milleto:
-- Presta atenção velhote, eu estou aqui. -- Antenor é, então, cortado ao meio pela lâmina de uma espada zarolha. O sangue se espalha vagarosamente enquanto desce o Monte Negro e ainda é visto bem vermelho na brilho cristalino da espada de Milleto. "Os velhos tem que dar espaço para os novos. Você era um cara forte, mas um dia alguém tinha que derrotá-lo, é uma pena ter que ser eu, mas saiba que você era muito admirado", disse Milleto em voz de velório. Levantou o corpo morto, desceu o Monte Negro e se orienta para o Cume do Norte, onde vive a sua tribo.
Enquanto isto, em meio à poeira, um velho de barbas brancas ligeiramente amareladas se oculta e observa o ninja voltando à casa com um corpo falso no ombro: "Quando voltar aqui, criança, estarei melhor preparado para um menino com tantos truques" sussura Antenor para si "Mas agora não tenho tempo para brincar com você".
-- Acontece que eu nem sai daqui -- Diz o verdadeiro Milleto, atrás do velho -- Ora ora... Parece mesmo natural que você também tenha ficado surdo depois de usar tanto um golpe daqueles.
-- Sabe porque eu ganhei esta batalha, menino?
Milleto, sem poder escutar direito, se vira e vê outra imagem borrada do velho na poeira. Antenor continua:
-- Porque eu tenho o terreno sempre preparado. A poeira que está respirando deve estar envenenando cada célula de teu corpo agora, é um dos motivos para o nome do Monte. Antes de mim, o chamavam Monte das Pitangas, mas eu acabei com as pitangas, como pode bem ver... Agora sua morte representa centenas de homens como você aqui, chegando em alguns dias. Tenho que me preparar, mas por hora, não tenho tempo.
-- Ninguém nunca sai vivo do Monte Negro, depois que entra.
19 de maio de 2010
Cenário
Havia um trem quebrado que demarcava uma listra, uma grande listra, mas ela não podia ser vista da lua. Quadrúpedes saltavam de um lado a outro simulando pânico, o pânico dos ruminantes. Não sei. Tinha um boné verde-vermelho que flutuava no ar na meia altura do muro cinza, mas nunca ficava alto demais nem alcança o chão. Era perturbador. Ele quase tocava o chão algumas vezes, mas eis que levantava vôo novamente.
Um delicioso molho de tomate vinha da esquerda, misturando-se com uma rosinha tímida da Tailândia que chegava da direita, tudo em cheiro. Era possível perfeitamente simular o perfume da sopa quente que Tiradentes tomou aos quatro anos e odiou. Para tanto se devia localizar mais à esquerda que à direira. Na Sombra da nuvem que soprava si mesma, a terra cheirava molhada.
Um sino bem longe gritava "Madalena!" e umas ovelhas transparentes podiam soltar sons de asas de insetos - Era bizarro. Navarro era representado por uma estatueta verde que lembrava um anão de jardim, esta podia grunir. A mistura sonora ecoava no trem e fazia a penumbra dançar. Requebrando animada, a penumbra fazia muito barulho, quebrava o trem, chamava tomates e rosas e ovelhas espelhadas.
29 de abril de 2010
Naufrágio
batia, brabo, bamboo branco
causando certas críticas com certeza.
Dependendo do desejo da dama,
ela emanava elogios e envolvimento
fogosa, fazia fulgurar fregueses francos.
Gabriel, gaguejando, golpeava grandemente
hesitava, humildemente, há horas
intimidado, ia iluminando irreversivelmente
Joana, já jogando jóias japonesas
lindamente levava laranjas lá
manuseando meninos mimados
Nada não normal neste navio
o orador olhava orgulhoso os outros
porque procurava por pessoas penetras.
"Que queime quanto quizer"
riram roucos ruins rapazes
sozinhos, sombrios, só sentiam sons
Talvez tudo terminasse tarde...
um universitário uniu utensílios
verificando vexame, vendo viajantes voarem.
Xingaram xícaras, xaropes, xilofones, xadrezes
zanguaram... Zona zonza! ... Zarpavam ziguezagueando
20 de abril de 2010
Amarelo
15 de janeiro de 2010
O homem de algum lugar
A face do homem, amarrotada, suja, barbada não parecia com qualquer rosto que já houvesse sido visto por um pintor de região alguma. Mas o dinheiro. O dinheiro marcando o lado esquerdo da roupa. Aquilo era o mesmo dollar em qualquer lugar do mundo.
Ele dormiu alguns segundos, afastou-se da parede e correu.
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Poderia isto ser um plágio?
16 de outubro de 2009
O Homem de Lugar Nenhum
As roupas do homem, amarrotadas, sujas, rasgadas não pareciam com qualquer roupa que já houvesse sido produzido por um artesão de região alguma. Mas o sangue. O sangue manchando o lado esquerdo do da roupa. Aquilo era o mesmo sangue em qualquer lugar do mundo.
Ele parou alguns segundos, encostou-se na parede e apagou.
30 de agosto de 2009
A Fábula dos Corações
10 de agosto de 2009
O homem que comprava relógios
O professor possuia a voz mais calma, mais lenta e mais grave, a voz de uma pessoa determinada. Sentava ereto, mas sem parecer orgulhoso, passava confiança. Seus gestos eram firmes e suaves.
O homem falava rápido, como se quisesse terminar logo de falar antes que acabasse falando algo desnecessário, sua voz era aguda e seus olhos se moviam inquietos de um lado a outro. Parecia ser um homem bastante metódico e objetivo, sem tempo para perder com trivialidades. Suas mãos eram inquietas e tremiam, seus dias pareciam ser bastante estressantes.
O cartão foi entregue com um endereço escrito na parte branca de trás que todos os cartões têm. Com tudo já resolvido o homem se levantou e foi logo saindo, dispensando qualquer cortesia que tivesse sido oferecida ele sumiu escada abaixo.
24 de julho de 2009
O Paradoxo da Bruxa
Conheci uma bruxa muito triste e infortunada, que saia vagando por entre as árvores do bosque e às vezes por suas copas, saltitando. Certo dia consegui falar com ela e perguntei-lhe do motivo de tamanha tristeza que levava consigo. Ela, então, atenciosamente, me contou sua história.
Uma vez durante sua juventude ela resolveu enfeitiçar um rapaz e para tanto precisava de um objeto que o representasse, que fosse dele e que ele gostasse muito. Sua mestra em feitiçaria sugeriu que obtivesse algo que ele fosse muito apegado, e sua mestra em poções sugeriu que pegasse um pedaço de algo que fosse do corpo dele. A jovem bruxa resolveu então pegar uma peça íntima, que ele certamente sentiria falta e que não estivesse limpa, para que tivesse a essência da vítima.
Não lhe faltaram avisos: "quando uma bruxa faz o feitiço, volta-lhe o efeito em triplo", "se der errado, a intenção ainda valerá e você pagará pela natureza do feitiço"... A pequena bruxa estava resoluta e não queria mais esperar. Na décima noite de Outubro, antes da Lua cheia da Deusa, ela invocou forças que se contrapunham a natureza e rougou ao garoto sua maldição tão desejada.
Estas coisas não acontecem de uma hora para outra, se passa algum tempo para que o feitiço "pegue". Ela esperou dia-a-dia para ver o garoto infortunado. Os seus dias, enquanto esperava, ficaram cada vez mais nebulosos e tristes, enquanto os dias do rapaz eram cada vez mais alegres e esbanjavam juventude.
Sua mestra em ciências naturais perguntou-lhe: "qual o objeto usado no feitiço?", e ela respondeu meio sem graça, "uma peça íntima". A mestra realmente não entendeu o caso e invocou o poder daqueles objetos místicos que falam de maneira oculta e que ninguém nunca entende; este respondeu com versos:
8 de março de 2009
De Volta ao Mundo dos RPGs
No meio da era das grandes guerras existe um reino que é lendário por sua reputação de popularidade e harmonia interna; um reino onde houveram pouquíssimas revoltas e cuja auto-sustentação é imperial. Este é o reino de Wigner, um homem sábio e forte em todos os sentidos da palavra.
Diz-se que o reino foi atacado por todos os seus vizinhos, mas a batalha, que dura já uns vinte anos, ainda não se mostra no fim, porém Alcora (o reino de Wigner) se mostra implacável em muitas das batalhas travadas.
Um dos segredos de Wigner para o sucesso das estratégias de guerra é manter segredo de todas as vilas que dão suporte, seja com alimentação, com armas, com guerreiros, etc. Estas vilas são ocultas entre as montanhas e florestas de toda Alcora, e seria sobre-humano para um inimigo encontrar as passagens secretas para tais vilarejos, mas quem disse que todos os inimigos são humanos?
Apenas alguns homens de mais variadas perícias são eleitos para fazer a ligação entre o reino e as vilas. Estes homens geralmente são fortes e sabem ocultar bem a sua presença e dos materiais exportados, são chamados de "-ais": os que vem da vila de Loki são conhecidos como "Lokiais" e os que vem da vila de Orige denominam-se "Origeais".
Nem sempre os "-ais" obtêm sucesso em suas missões e alguns grupos são totalmente dizimados. o que muitas vezes significa que a vila foi descoberta ou que a vila nunca mais terá contato com o reino, ao menos não durante a guerra.
A vila de Loni, onde começamos esta história, está na situação de não ter contato com Alcora há dois anos e agora precisa saber o que está havendo com o reino. Vai eleger pequenos camponeses que cresçam em poder e coragem para que cruzem as fronteiras ocultas do reino e finalmente determinem o futuro do vilarejo. Chegou a hora de eleger os novos "Loniais".
20 de novembro de 2008
Investida
O que lhe chamou atenção não foi isto, aliás. A menina tinha pinta de que não era menina de namorico; era uma criatura aberta a relacões um-a-um, dois-a-um, n-a-n, etc...
Começou a investigar. Ela tinha namorado fulano, mas não deu certo. Ficou com dois caras simultaneamente por algum tempo, depois resolveu ficar quieta e acabou se relacionando sério com uma menina. Teve até uma fonte segura que chegou a dizer algo do tipo "nunca vi ela negar nada". Olhando para ela ficava claro que ela não era uma menina de dizer um não quando você atiçasse. Também não tinha nenhum trabalho de esconder suas relações e sua forma alternativa de pensar.
Aí você dá ouvidos à razão, ou ao coração, ou ao orgulho, sei lá! Sente vontade de entrar na jogada mesmo tendo valores quase totalmente divergentes. Aconteceu que ele resolveu pegar a garota. Chegou devagar, conversou, brincou. Na hora "H", na hora em que tudo poderia rolar (meticulosamente calculado depois de toda a investigação comentada) ela deu pra trás...
Hey! Peraê! Como assim? Ela não nega pow! A menina que fica com todo mundo não quer ficar com o cara? Tudo bem, que besteira! Fazer o quê? Não se pode obrigar ninguém a fazer algo que não se quer.
Depois aquilo vai subindo a cabeça e o camarada fica meio complexado, "como é que pode?". Observa os passos dela e fica meio noiado receando a data que ela vai ficar com alguém. Foi assim que ele gamou nela. Vai entender!
14 de maio de 2008
Cruzamento
Joaquim Tavares (os nomes citados nesta narrativa fazem parte de escolha aleatória do autor, qualquer semelhança com outras pessoas é mera coincidência) estava numa sinuca de bico, quer dizer, numa saia justa ou nunca situação apertada, se é que você me entende... Aí ele achou que uma das soluções possíveis (porque não era única) era se endividar com um camarada que retinha boa parte de dinheiro em seus obscuros cofres de fundo de beco. E assim foi. Depois de algum tempo (uma semana e três dias) Joaquim tinha que pagar a dívida, mas não tinha como. Avisado outrora que acidentes aconteciam, Joaquim resolveu solucionar este problema com o ato de assaltar: dinheiro entra fácil e não tem mais ninguém para se preocupar por isto. Como não era um cara experiente e ainda estava muito receoso, esperou uma semana para realizar seu primeiro assalto. Escolheu justamente aquele outro camarada cujo nome não foi pronunciado no início do texto, lembra? (Se não, favor recomece a ler o texto prestando mais atenção) Pronto.
Adamastor Valente (o outro camarada cujo nome não foi pronunciado no início do texto) era bizarro. Não faço a mínima idéia de onde pode ter surgido um cara daquele jeito (acho que você vai concordar comigo) : deixa eu contar... Adamastor não conhecia absolutamente nada e não sabia de nada. Era como um espectro que nunca existiu e que em poucos segundos já iria deixar de existir, quando talvez dobrasse uma esquina. Tinha pinta de agricultor, mas nunca tinha visto nenhum dos equipamentos que estão espalhados usualmente nas plantações. Ele vagava, naquele dia, como um "zé ninguém" no meio de um mundo que parecia que não conhecia nem um pouco.
Foi neste estado que Joaquim abordou Adamastor.
-- Muito bem! Passe a carteira, celular, dinheiro no bolso? Manda tudo.
Adamastor fica imóvel. Joaquim olha bem para a cara do outro infeliz e se arrepende quase que instantaneamente.
-- Bem, senhor, deseja que eu lhe dê tudo o que tenho? Não posso, tive recomendações para não deixar nenhum estranho levar as minhas coisas.
Joaquim se irrita, queria que tudo fosse rápido e se sente extremamente arrependido.
-- Muito bem, então... (Joaquim saca a arma e ameaça o outro)
Ao passo que Adamastor responde:
-- Ah! O senhor não fica com raiva de mim, não? É que disseram que este mundo era perigoso e tomam suas coisas sem você querer. As coisas que eu tenho eu vou precisar.
-- Hey, calma calma calma calma... Fica quieto! Isto aqui é um arma, não está vendo? Se não me passar as coisas eu juro que te detono.
-- Uma arma? Eu conheço armas muito mais pontiagudas que esta, não acho que poderia me destronar, aliás, não sou rei.
Joaquim pára, olha em volta e não acredita. Aquele cara lá parecia estar falando mesmo a verdade. Era o timbre de voz, sei lá. Joaquim então explica:
-- Esta arma atira... E o que sai daqui de dentro é muito mais potente que qualquer arma pontiaguda. Eu disse DETONO.
-- Lanças são muito eficientes. Isto é melhor que uma lança? Ah, já te disse: não sou rei.
-- Isto vale por mil lanças, um tiro e você morre. Eu falei detonar de detonação: eu te mato!
-- Mil lanças? Porque você quer meu dinheiro se tem dinheiro para comprar mil lanças?
-- Esta arma é emprestada. Estamos conversando muito: passa logo este dinheiro.
Adamastor põe a mão nos bolsos e faz sinal de negativa.
-- Meu nome é Adamastor. Qual o seu?
-- Cala esta boca e passa logo o que você tem aí...
-- Aí onde? Não tenho nada.
-- Nos bolsos.
Adamastor dá mais uma olhada nos bolsos e volta a olhar para o outro infeliz (infeliz aqui se refere ao outro e não a Adamastor, tá?) com sinal de negativa. Joaquim acha, ou tem certeza, que tem alguma coisa ali. Quando pede pela quarta vez e quinta percebe que tem duas alternativas: a primeira é desistir de assaltar aquele cara, a segunda é meter-lhe o cacete: descer o pau no otário. Definitivamente ele estava arrependido de ter escolhido aquele "pinta de agricultor" pobre. Pelo menos serve de lição a escolha do pato.
Quando Adamastor perde a consciência Joquim lhe mete a mão pelos bolsos da calça jeans. Não havia nada, a não ser uma carteira de Hollywood suave, a chave de um cadeado pequeno e areia. Joqum se recolhe com os ciagarros, vira o beco e sai de mansinho (discreto a passos largos) ; talvez orgulhoso da coragem em abordar, talvez arrependido do ato de não conseguir nada.