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27 de maio de 2012

Dinheiro é para ser gasto

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Ele me chamou de pirangueiro, aliás, ele sempre me chama de pirangueiro. "Pirangueiro" aqui significa "mão de vaca", "mão fechada" ou simplesmente um sujeito que guarda dinheiro sempre, não importa a situação, sem motivos fixos, embora sempre tenha um motivo na ponta da língua. Este sou eu, muitas vezes. Embora pirangueiro pirangueiro mesmo, não sou, mas gosto muito de ponderar e isto me faz  parecer pirangueiro e, neste mundo, na grande maioria das vezes, parecer é muito mais que o suficiente.

Ali estava ele comentando o quanto eu deixo de viver apenas para manter uma graninha a mais para os imprevistos, que deixo de aproveitar a bela e maravilhosa noite boêmia do Recife Antigo só porque quero manter uns reais para o final do mês. Um dia hei de ficar apenas com dinheiro, sem amigos, sem experiências, sem graça... O dinheiro foi feito para ser gasto, e nada mais. Naturalmente não estamos sendo radicais: pagas as contas e o plano de saúde, deve-se usar o dinheiro dia-a-dia.

"Você comeu?" perguntei rapidamente enquanto entrava na sala, claramente procurando por uma companhia para o almoço. "Não, estou com pouca grana", disse ele em seguida, "bem...", respondi prontamente, "o Restaurante X é só três reais", onde no mundo se come bem (em quantidade e, sim creia, com qualidade) por apenas três reais? Ele disse, "não, trouxe coisa de casa para comer". No dia anterior ele estava sem grana para jantar e ficou sem comer. Na verdade, eu nunca tinha pensado nisto tudo, e provavelmente não pensaria, se em algum ponto de uma conversa no mesmo dia eu não fosse enquadrado como pirangueiro novamente. Eu refleti um pouco, não muito, mas sentia que algo disto tudo não se encaixava exatamente. Como um cara consciente como ele estava com pouco dinheiro já no meio do mês? Não era o caso.

Nos dias que se seguiram eu sempre perguntava "vamos almoçar no restaurante X?", porque era barato, mas ele sempre alegava falta de dinheiro. Quando um dia liguei para ele antes de chegar ele estava almoçando com a namorada, e como ela é um tanto quanto refinada, era no restaurante Y, onde o quilo custa R$ 26,90. Eu sorri. Não é que sejamos diferentes, eu penso, mas que ele prefere se abster de gastar enquanto é para ele, para poder gastar com a namorada. Para melhorar a sentença anterior repito a frase dele: "se um amigo precisa que pague a conta, não tem problema nenhum, eu pago, o importante é aproveitar - dinheiro é para ser gasto".

Mesa de bar: isto é aproveitar, concluí. Só um pouco diferente da minha visão, onde prefiro comer normalmente cada dia e, de vez em quando, deixar de sair (até porque sou muito caseiro) para me manter melhor depois. Eu não consigo, olhando assim, pensando assim, distinguir minhas atitudes da do meu amigo que apenas tem diferentes prioridades. Isto me faz pensar que, na própria lógica dele, ele também é um pirangueiro. Para repetir minha frase do primeiro parágrafo, eu não sou pirangueiro, mas com certeza não quero passar os últimos dias do mês sufocado.
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2 de setembro de 2011

Ausência

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Ai, que saudade dela! Um ano atrás ela estava aqui entre nós, brincando, comendo, fazendo-nos rir com seu jeitinho desconcertante e sua ironia assassina. Ela se dizia poetiza e saia escrevendo sobre tudo e todos, desde o pássaro no jardim, que viu assim que abriu a porta de casa, desde a discussão de motoristas de trânsito sobre a culpa do taxista. Ela também queria conversar filosofias, mas isto nunca vingava muito, a gente não tem muita formação, não entende estas palavras complexas que os poetas e cientistas usam. Ela tinha me escrito uns poeminhas, vou pegar. Puxa, ela escreve muito bem mesmo! Uau, a forma de ver a situação é completamente genial! Ela era muito boa mesmo nisto!
E assim, mais um é reconhecido depois de morto.
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31 de março de 2011

Decisões

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A decisão do Sr. José apareceu dois dias depois. Em geral não se diz que uma decisão nos aparece, as pessoas são tão zelosas da sua identidade, por vaga que seja, e da sua autoridade, por pouca que tenham, que preferem dar-nos a entender que reflectiram antes de dar o último passo, que ponderaram os prós e os contras, que sopesaram as possibilidades e as alternativas, e que, ao cabo de um intenso trabalho mental, tomaram finalmente a decisão. Há que dizer que estas coisas nunca se passaram assim. Decerto não entrará na cabeça de ninguém a ideia de comer sem sentir suficiente apetite, e o apetite não depende da vontade de cada um, forma-se por si mesmo, resulta de objectivas necessidades do corpo, é um problema físico-químico cuja solução, de um modo mais ou menos satisfatório, será encontrada no conteúdo do prato. Mesmo um acto tão simples como é o de descer à rua a comprar o jornal pressupõe, não só um suficiente desejo de receber informação, o qual, esclareça-se, sendo desejo, é necessariamente apetite, efeito de actividades físico-químicas específicas do corpo, ainda que de diferente natureza, como pressupõe também, esse acto rotineiro, por exemplo, a certeza, ou a convicção, ou a esperança, não conscientes, de que a viatura de distribuição não se atrasou ou de que o posto de venda de jornais não está fechado por doença ou ausência voluntária do proprietário. Aliás, se persistíssemos em afirmar que as nossas decisões somos nós que as tomamos, então teríamos de principiar por dilucidar, por discernir, por distinguir, quem é, em nós, aquele que tomou a decisão e aquele que depois a irá cumprir, operações impossíveis, onde as houver. Em rigor, não tomamos decisões, são as decisões que nos tomam a nós. A prova encontramo-la em que, levando a vida a executar sucessivamente os mais diversos actos, não fazemos preceder cada um deles de um período de reflexão, de avaliação, de cálculo, ao fim do qual, e só então, é que nos declararíamos em condições de decidir se iríamos almoçar, ou comprar o jornal, ou procurar a mulher desconhecida.
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(José Saramago - Todos os nomes)

17 de março de 2011

Sozinhos (parte 6)

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-- Cheguei em casa ontem e finalmente bebi Jurubeba.
-- Foi mesmo, cara? Minha tia se acidentou antes do carnaval, bebeu muito.
-- Você sabe, né? Estava a um tempão querendo experimentar...
-- Ela saiu experimentando tudo e a mistura não deu muito certo.
-- Foi presente de Israel, mas guardei para uma ocasião mais própria.
-- Israel nem apareceu para dar uma força a ela no hospital.
-- Fuleragem, hein? Mas dizem que Jurubeba foi a bebida deste carnaval.
-- Hum... deve ter sido. Minha tia teve que passar por cirurgia.
-- Bem, eu não sei. Sei que bebi e achei até boazinha.
-- Beleza cabra, a gente se fala por ai.
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1 de fevereiro de 2011

Apesar de acertarmos mil vezes somos lembrados pelo único erro que cometemos!

by Plínio

31 de janeiro de 2011

Dê-me um apoio

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Eu queria ser mulher. Não que eu não esteja satisfeito com meu corpo, com minhas saliências e meu cheiro forte, não é isto. Eu penso que tudo parece ser muito mais simples para a mulher. Veja meu pai, por exemplo, nunca irá aceitar que eu prefira o corpo do Gianecchini ao invés de ficar babando pela gostosona do comercial de cerveja que ele insiste em me passar na cara: "pra ver se você toma jeito, rapaz!". Mulher também gosta de homem e ninguém reclama. Todavia, se eu fosse mulher, talvez, para manter a problemática social, eu seria lésbica; talvez eu seja "assim" só por ser contra este determinismo polarizado que a sociedade insiste em manter. Se eu fosse mulher, lésbica, seria mais aceita. Sei lá: todo mundo diz que choca muito um beijo público entre homens, mas mulheres se beijando até agradam a maioria. É fogo. Será que se eu fosse mulher meu pai me aceitaria? Não sei, acho que sim. Imagino ele falando com o olho de lado, com um cuidado especial para não afrontar sua filha "metida a homem"; mas comigo parece até que eu estou perdido no mundo, que ele pode zoar e me humilhar entre a família e até entre amigos. Isto, porque ele nem sabe de minhas experiências ainda, acha que sou celibatário, mas por quanto tempo? Quando ele souber o mundo cai, me deserda e rompe todos os laços, eu sei. Se eu fosse mulher, ele desmaiava e me aceitava no ano seguinte, no natal.

Complicado até para arranjar um namorado decente. Conheci um rapaz decente estes dias, um tal de Daniel. Bonito e sorridente, esbanja charme com seus óculos discretos e seus olhos brilhantes. Eu senti logo quando nossos olhares se bateram que ele também gostou de mim. Eu tentei me aproximar e parece que ele ficou com medo. Saquei que ele não admitia que sentia atração por mim. Caramba! Já não é fácil se sintonizar com um cara e quando aparece um ele ainda não superou a parte da aceitação? Se eu fosse mulher, usaria esta moda que tá pegando por ai. Sim, sim, tem uma moda por ai. Tudo que é menina nova parece que é iniciada em experiências de carinhos e beijos com outras meninas. Vejo em todo lugar, todo mundo acha legal. Se bem que tem muito menininho entrando na moda também, os caras tão escancarando a porta do homossexualismo para as próximas gerações. Eu acho o máximo, mas os meninos tudo tão ficando delicados demais, sentimentais demais pro meu gosto...

Aqui dentro tudo é tão estranho... Victor, aquele otário do jiu jitsu, chegou pra mim outro dia me esculachando. Num instante dei um fora que o coitado chega ficou vermelho, ali, na frente de todo mundo. Foi o máximo. Foi fácil também: eu não estou nem aí pro Victor - Ele que exploda! - Com meu pai, por outro lado, é muito mais complicado. Ai como gostaria que ele me apoiasse! Que eu pudesse, quem sabe um dia, convidar o Daniel pra passar o natal conosco lá em casa! Com a família toda reunida, todos juntos, sem dissimulações, sem precisar esconder minha verdadeira identidade. Será que é troca: para ser feliz com meu companheiro, tenho que perder o amor de minha família?
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9 de dezembro de 2010

Tratamento de choque

Num muro estrelado (que começo lindo hã) eu vejo o néctar da vida que derrama do peito aberto de uma jovem suicida. Que loucura, que insanidade. É preciso chorar.
Eu choro lágrimas embriagadas em um copo de bar, e no copo vazio eu sinto a solidão. A depressão que irá me acompanhar enquanto espero a próxima rodada chegar.

Nos bares as histórias se misturam. Todos tem seu poema, todos tem sua canção. Naquelas mesas sujas eu escuto o conto de João.
"Saia daqui seu imundo, filho de Satanás. Já não é a primeira vez"
João perdeu o emprego por que falou um palavrão.

João pegou suas economias. Tudo o que tinha pra pagar o que devia (a geladeira de sua mãe), e comprou uma arma e saiu pra assaltar.
Assaltou um policial, coitado!

Paz! Ele era só um estudante.
Abaixo a violência!
Quem quer fumar maconha?
Quem quer um baseado?
"Maconheiro safado, quem matou ele foi você. Quem matou ele foi você"

E enquanto isso, o Sol se põe novamente.

Deixamos a vida escorrer pelas janelas e portas enquanto assistimos a programação da tv. Deixamos a vida passar na casa dos vizinhos. É problema deles.
Vendemos nossos corpos nos bares das esquinas. Vendemos nossas almas no conforto de nossas salas.
Vivemos entre loucos e psicopatas. Somos os loucos e os psicopatas
E aqueles que acham que podem se curar,
Receitam rivotril.

23 de novembro de 2010

Eu vejo o véu que cobre a próxima esquina
Escuto o som que o vento traz, contando histórias do passado
Eu tenho as chaves para abrir os portões da sua imaginação

Se deixa
Se solta

A medida do caminho em dois dedos de vinhos
É só o que resta
A tempestade se aproxima e eu procuro abrigo
E sombra
A incerteza me deixa inquieto
A incerteza me deixa inquieto
A incerteza me deixa inquieto

E o passado são só vozes mortas e olhares perdidos
Você andando num carro desgovernado e sem destino
Se me dizes o que te aflinge
Eu te digo o caminho a seguir
Mas se choras em meus ombros
Eu já não sei o que fazer

A incerteza me deixa inquieto
A incerteza me deixa inquieto
A incerteza me deixa inquieto

Me diz o que vem, o que anda escondido
Me lembra as cores de seu velho vestido
E então me segue no caminho proibido
Nós dois somente, nós dois somente, nós dois somente
E o céu

9 de novembro de 2010

Super-dúvidas

Ontem a tarde eu estava passeando pelo campus da UNICAMP até que resolvi sentar em um dos bancos ao redor do círculo central que tão importante é que está presente no símbolo conhecido da instituição. Ainda não tenho muitos amigos com quem compartilhar uma gostosa tarde sentindo o vento e observando a bela paisagem arbórea de forma que, ali, eu me encontrava sozinho. Talvez, e com toda a probabilidade o é, seja supérfluo mencionar que dei uma volta, ao redor do círculo, de aproximadamente 270 graus apenas para evitar um grupo de estudantes da USP que vendiam assinaturas promocionais de revistas supostamente financiadas pelos cartões de crédito. O que importa realmente é que eu estava lá, sentado, olhando ao redor como se curtindo o bom tempo e o sol sorridente, mas na verdade internamente obcecado com questões acadêmicas e de cunho particular. Estando lá, como estava, vi o que vi e pensei o que pensei, como não poderia se não estivesse lá - dirão os médios: é claro! Eu respondo que existem aqueles que acreditam em destino e não se pode recusar a probabilidade de que aquilo só venha a ter acontecido porque eu estava lá para acontecer, de forma que se não estivesse lá, aconteceria onde quer que eu estivesse. Fora questões que não nos levam a lugar nenhum, vamos ao que interessa.

A única coisa que vi, de fato, vendo, com os olhos da carne, foi um senhor que se chegou para sentar ao meu lado. Complicado isto é, já que poderia te-lo chamado de rapaz, uma vez que velho não era, mais velho do que eu certamente, mas isto entra no questionamento de como eu deveria ser chamado, se rapaz deixei de ser e senhor ainda estou longe. O senhor-rapaz ao meu lado sorriu e me mostrou uma chapa de ferro, dividida sutilmente por uma fenda longitudinal, destacando quase que imediatamente as duas partes como se a chapa fosse de plástico. Eu não entendi o que aquilo queria dizer e fiquei muito mais impressionado por uma pessoa de Campinas sentar-se ao meu lado num lugar público que oferecia diversas outras oportunidades de assento individual do que com a graça que o que chegou fez. Eu, com a testa franzida propositadamente, o olhei com atenção e simpatia, já que ele trazia aparência simpática. O senhor-rapaz me ofereceu a chapa de ferro com a mão esquerda, quando a toquei, verifiquei que se tratava se um material realmente deveras duro para se quebrar ou dobrar. Depois que me viu manuseando o objeto com certo carinho, o senhor-rapaz o pediu novamente e lhe entreguei, ao passo que ele tinha dobrado o material com o uso de apenas uma das mãos. Diante de provocação tão direta, improvável seria se eu, mesmo sendo de natureza leza como sou, não notasse que o senhor-rapaz queria que eu o fizesse um super-herói.

-- Você é mágico? -- Imaginei logo que a presença de semelhante criatura ou significasse que cobraria por serviços de distração, o que cabe a um mágico como aquele, ou que me apontaria convite para um espetáculo onde a alternativa anterior caberia mais convenientemente. Só pensei em dinheiro, confesso.

-- Não -- Respondeu o senhor-rapaz com ares agora menos, se é que eram antes, formais -- Eu gostaria de companhia. Esta tarde está deveras prazerosa para se passar sozinho e sem uma boa conversa. -- Agora, mais que antes, estava certo de que o mágico era na verdade um homossexual atraído por algo da minha descuidada aparência (cabelo a cortar e barba mal feita de quem não fez por que tinha prova na manhã do dia em que estamos e passeou pela Unicamp para esquecer de todos os esforços mentais de decoração e alienação estudantis), mas desde que não fizesse nada demais, não havia problema em tê-lo ali para uma conversa. Talvez eu deva me ater um pouco mais neste ponto, o de eu pensar ser o homem-rapaz um homossexual, porque não se tratou apenas de um reflexo preconceituoso oriundo da impressão de uma tentativa de um homem se aproximar de outro sem motivos outros que banais e, com toda a probabilidade, pessoais, mas mais ainda do uso do esteriótipo bem conhecido de que homem de voz fina e movimentos delicados tem apreço por homem de voz grossa e ares de macho. Tá certo, tudo isto cai também no preconceito; fui preconceituoso por achar alguma coisa quanto ao mágico (não note minha falta de modéstia).

Sentou-se observando cuidadosamente se a areia havia sido devidamente evitada. Ao encostar suas nádegas no banco de cimento, não despejou ali seu peso, como se cuidando de sentir o frio da pedra ou de esquentá-la antes de se deixar entregue, mas foi deixando lentamente o peso transferir-se dos pés e da mão esquerda que servia de apoio para a região do corpo que toca a cadeira quando o indivíduo senta corretamente. Parecia um velho. Não esperou muito para dizer o que viera dizer e o que será extensamente relatado nos próximos parágrafos, uma vez que pensei que seria interessante trocar a forma de meu relato de primeira para terceira pessoa e o farei com devida atenção a partir de agora e assim continuarei até que a coerência me obrigue a voltar para a maneira do início com o único objetivo de dar aquela sensação de que o texto foi bem fechado no último parágrafo.

José era seu nome, e travava consigo mesmo uma batalha interna de imensa importância para a sanidade do estado de São Paulo ou, talvez com a evolução das tragédias, para o país. Ele, o senhor-rapaz, dotava de poderes sobrenaturais que, como o nome sugere, está sobre os naturais. Podia mover facilmente grandes pesos e se movimentar com velocidade razoavelmente alta, desde que, claro, como todos os humanos já devem ter notado, tiver algum espaço para se impulsionar do estado parado, ou como insistem os professores de física, de Vo = 0, já que o importante não era a velocidade, mas a aceleração que ele era capaz de suportar e provocar em si mesmo. José cresceu como qualquer outro garoto, mas como tinha acesso a proezas únicas, passou a obter êxito de quase 100% nas investidas de assalto ao dinheiro de seus familiares, naquela idade da infância que os garotos não sabem distinguir o que é seu do que é dos outros em casa. Aqui deve-se duas retificações, a primeira é que ele nunca assaltou, a palavra correta, ou mais correta, seria roubar, já que ninguém nunca o pegou usando de ameaças com os outros de condições sub-sobrenaturais, segunda retificação diz respeito ao "quase" acima, não foi 100% só porque se o tempo não era suficiente para ir e voltar, então o garoto voltava de mãos vazias, e isto não é êxito em um roubo. O caráter do rapaz, como deu pra notar muito mal exemplificado acima, não era fácil de moldar por educações sub-sobrenaturais, mas a religião evangélica que empregava a cabeça sã de seus pais o ajudaram a criar noção de bem e mal, mas, como o é para grande parte dos que como ele é, diga-se assim, religiosos, fazer o bem pode parecer simplesmente não fazer nada. A inteligência do rapaz fugia de tudo o mais que acontecia com ele, quer-se dizer, era medíocre, mediana de maneira tal que provavelmente passaria em um concurso e viveria como metade dos que vivem no estado. Há aqueles, e é por isto que o futuro do pretérito se encaixa nas frases anteriores, que seguem seus sonhos, e o garoto quis seguir carreira de músico, tem banda e tudo, e mesmo que hoje seja um senhor-rapaz, ainda toca aquelas músicas que badalam adolescentes e se fazem presentes em seriados de final de tarde, aqui ou no México. José não é muito famoso, no entanto.

O senhor-rapaz já se apercebera de que a natureza é sábia, justa, ou seja lá o nome que se queira dar a ela, alguns dizem simplesmente que ela é "equilibrada"; seja o que for, se existe um ladrão, haverá de criar-se um policial, se existe um problema, há de criar-se alguém para dele livrar-se neste mundo desde que as profissões só existem para solucionar este ou outro tipo de problema. Há os indivíduos que optando por trabalhar do lado do problema, seja tomando vantagem das brechas seja as aumentando ainda mais, encaram a solução como problema e como agora trata-se de um problema, também este a natureza há de "equilibrar", gerando uma profissão que arque com ele, claro que estamos nos referindo aos vilões. Se existe no mundo alguém com sobrenaturais poderes, haverá de aparecer um sobrenatural problema, simplesmente usando da filosofia barata da "balança" que a natureza insiste em fingir manter. José assim pensava a meses e passeava pela cidade de Campinas com tal pensamento fixo na massa cerebral.

O sobrenatural José pensava que, se usasse de seus dotes fantásticos, acabaria por induzir no plano real um movimento restaurador com a aparição simultânea de um arquiinimigo. Se era assim, pensava que melhor seria se ele fosse o mal, para que surgisse um movimento restaurador bom e que o bom o derrotaria e assim ficaria para manter a sociedade a salvo de qualquer problema de ordem menor. Pensou também que ele, José, não deveria morrer, para que o outro ainda tivesse seu problema lacrado e a natureza não teria motivos para balancear o que já estava balanceado. Isto tudo pensou porque não era um músico de sucesso, esta conclusão se pode facilmente tirar pensando que se o fosse seria ocupado demais para pensar ladainhas, e tudo isto se tratava de ladainhas, já que se tirou conclusões demais ante um problema que nem se sabe se realmente existirá.

José estava ali, ao meu lado. Tinha dobrado uma tira de ferro duro e depois, diante de um pedido meu de tensionar o ferro como se faz com sacolas plásticas até se romperem, esticou o ferro até se fragmentar em um estrutura que lembra vagamente um tablete de ciclete esticado até se romper, as duas toras de ferro oferecendo infinitos pequenos vértices. Depois de contar toda a sua história de maneira mais interessante do que acima foi relatado, pois é complicado para mim reproduzir uma história que me foi contada ontem, em que alguns detalhes já me faltam pela memória fraca, José saiu correndo pelo terreno e em alguns segundos, dois talvez, já tinha desaparecido da minha vista. Eu pensei que talvez ele não fosse um homossexual, mas que ele tinha dúvidas, ah, ele tinha.
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14 de setembro de 2010

Tarde nublada

Eu vi o sol, mas só o vi ontem. Ele sorria pra mim e dizia "hoje vai ser um bom dia."
E ontem nem foi tão bom assim.
Hoje ele se escondeu atrás de nuvens pesadas de chuva. Não me disse nada nem me fez esperar nada.
E hoje o dia está sereno e tranquilo.
Mas não é o dia que eu queria.
Senti gotas de chuva subindo por minhas calças, se esgueirando entre as dobras, tentando me esfriar.
Senti o vento frio no rosto, cortando a pele e rasgando a alma.
Me escondi entre paredes grossas e seguras mas a janela de vidro não me deixa esquecer,
chove lá fora!

31 de agosto de 2010

A noite da carne

Andei por ruas escuras e desertas onde a multidão
dançava freneticamente
Corpos movendo-se numa coordenação aleatória
Mentes encontrando-se nas pupilas e vibrando juntas
através dos corpos alucinados
Idéias ressoando nos olhares psicóticos dos casais dançarinos


Andei no silêncio da noite onde o pio da coruja era abafado
pelo som doentio de músicas sem sentido
O ar gritando no ouvido ruídos insanos
A pressão explodindo ao redor, prendendo, aprisionando
A música convidando a enlouquecer


Andei por ruas sujas e fétidas
Onde o cheiro da podridão se misturava ao gosto suave
das nucas perfumadas
O ar impregnado com corpos chocando e espalhando feromônios
Sujeira sendo espalhadas pelos pés excitados e incontroláveis


Andei por ruas frias onde o calor dos corpos alheios fervia, queimava
Corpos sincronizando seus batimentos, dançando
a mesma música sem sequer estar a ouvi-la
Corpos tentando tornar-se um. Uno, com o cosmo
uno com a vida, uno entre si
Mentes tocando umas as outras, acariciando o ego, excitando


Andei por lugares onde cada um fazia sua própria música
e espalhava pelo ar
Onde os pés ritmados perdiam-se por entre bueiros podres
e dançavam entre a sujeira
Andei por lugares onde o tato era o único sentido usado,
os outros eram ignorados
Andei pelo meio da multidão enlouquecida e me misturei
Me contagiei e virei um ponto no meio daquelas ruas

27 de agosto de 2010

Motivações

"Cara, tu sai do Recife vem para cá sem ter falado com nenhum orientador e sem ter ninguém aqui que tu conheça - significa que com certeza tu NÃO estava satisfeito com a vida lá."
(A. -- em conversa informal)

Acho que algumas pessoas realmente pensam que eu resolvi mudar de vida por que estava insatisfeito com minha rotina no Recife. Eu mesmo sinto que meu discurso não soa convincente para a maioria das pessoas: eu estava muito bem em Recife, só queria vir por simples aritmética básica que, esta sim eu não posso negar, não gostei. Hoje graduado em física pela UFPE, o que me levou quatro anos e meio, e mestre também pela UFPE, o que me levou dois anos exatos - a defesa da dissertação foi no mesmo dia da colação de licenciado - sintia-me mais ou menos confortável naquele universo acadêmico onde eu tinha meu lugar e conhecia as pessoas já a, se deixei claro os números o leitor me acompanhou, seis anos e meio. A continha aritmética que não gostei foi somar, aos vinte e quatro anos que hoje tenho de vida, os próximos quatro anos que são comprometidos com o doutoramento. Isto significa que, em caso de fazer doutorado na UFPE - que é nível 7 na capes e tudo está tranquilo e preparado - eu saio de lá com vinte e oito anos e mais de dez anos sobre o mesmo teto universitário de sempre.

O objetivo da maioria das pessoas que faz graduação, pelo menos em física, e quer seguir a vida acadêmica lá no Recife, acredito, é ser professor da Universidade Federal de Pernambuco. O meu caso não é diferente. Quando for contratado, numa hipótese otimista, vou passar muito mais de dez anos sobre o mesmo teto. Por este objetivo eu quis sair um pouco, afinal de contas, como posso colaborar para a melhora e manutenção de um lugar do qual tudo que sei aprendi lá e tudo o que fazem me soa como natural?
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Uma vez me disseram, e isto não me pareceu informação boba, que as mulheres tendem a querer engravidar na casa dos vinte. Seguindo alguns raciocínios (...) mulheres de trinta e poucos anos já são chamadas "titias" e por isto no final da década de seus vinte anos elas consideram com veemência ter ou não ter filhos em sua vida. Eu acho que a minha vida deve ter a alegria e simpatia que as crianças trazem, mas me sinto completamente leigo sobre cuidar das outras pessoas e, na verdade, sou leigo em diversos aspectos em como cuidar de mim. Filho único de mãe solteira, há muita coisa que me acostumei a ter em mãos com certa facilidade, dizendo de outra forma, eu mesmo não cuido de mim - como saberia cuidar de uma criança ou família? Existe a antigüíssima alternativa de se "aprender na tora", mas "prevenir é melhor que remediar". Nos Estados Unidos a cultura expulsa a criatura de casa quando esta tem dezoito anos e eu aqui, com vinte e quatro, não sei fazer nada que não use apenas ovo, água, pipoca ou macarrão instântaneo. Em uma carta para o meu primo, solicitei que ele pensasse um pouco no futuro dele - como acho que a todo conselho que se dá se deve refletir sobre si mesmo, aqui estou eu.

Evidentemente, pode-se resolver o problema acima alugando uma casa, não necessariamente indo para o outro lado do Brasil, mas a questão acadêmica é, e a ordem da exposição textual visa enfatizar este fato, tanto quanto este comentário, a motivação maior. Aqui a capes dá nível 7 ao Instituto de Física e meu currículo não sai pior do que sairia na UFPE - existe uma possibilidade, e esta eu fiquei sabendo depois, de meu bolso sair mais cheinho, mas depende de orientador e outras questões mais complicadas. O problema financeiro não é a preocupação, já que vim para um lugar onde se gasta muito mais que em Recife.

Existem diversos problemas a resolver: não estou com moradia garantida e não tenho orientador, ou seja, não tenho o que pesquisar e meu doutorado, por este motivo, ainda não começou de fato. Estas coisas se resolverão nas próximas semanas, claro, se eu me mover e tomar contas das rédeas da minha própria vida...

Estou aqui não por que quero a liberdade e a privacidade plenas, se bem que acabarei experimentando, mas por que mais cedo ou mais tarde algo pode vir a precisar de uma resposta rápida e tenho em mim que esta experiência pode me ajudar a responder devidamente.

26 de agosto de 2010

Saber

sei de nada, só sei que eu num faço questão de saber de nada
por que quem nada sabe não sabe que sabe de nada
e ainda assim vive feliz com isso

25 de agosto de 2010

Ontem à noite

Ontem eu vi a Lua.
Estava cercada pelas copas das árvores
e por um telhado de amianto.
Eram seis horas, a hora do crepúsculo e da saudade.
A Lua estava cheia e bela.
A Lua estava cheia e solitária no céu nublado.

20 de julho de 2010

Tempo

Brisa. Sol. O céu é azul.
Som e cheiro. Toque e tato,
uma farpa de madeira no dedo.
Suba a bordo, o barco vai partir.


Fúria, fogo, flor,
suave e doce.
Inspire.
Expire.

A passagem se deu às onze horas.
Era noite e a Lua se escondeu.
Era noite e estava escuro.
Suba a bordo, o barco vai partir.

Amor.
Isso não existe.
O que?
Amor.

Tranquilidade é ver um furacão pela TV.
A fumaça entra, aquece, queima.
Essa é a última chamada,
suba a bordo, o barco vai partir.

5 de julho de 2010

Moeda

Existem dois¹ tipos de pessoas no mundo: aquelas que confundem as coisas e as outras, que não.

Eu definitivamente confundo tudo.


_________________
1. Não se assuste com o número. Ele é uma tentativa, em vão, de não te confundir.
.

29 de abril de 2010

Convergir

Essa semana, ontem, eu não dormir direito.
Virei na cama durante horas e a cada hora que passava eu olhava pela fresta da janela e dizia a mim mesmo "falta pouco tempo pro sol nascer, daqui a pouco eu levanto." Meu celular descarregou no meio da noite.
E assim foi a noite inteira.
Minha mãe costumava dizer para eu ler quando não estivesse com sono, que ajudava o sono a vir. Como se ele fosse uma locomotiva precisando de carvão (não queimem seus livros, hã!) Isso quando eu era criança. Na verdade ela ainda diz isso.
Bem, durante a noite eu pensei em diversas coisas, como qualquer mente ociosa: uma garota branquinha interessante, com uma risada divertida; uma outra garota, morena, baixinha, sexy e uma terceira garota, também morena e baixinha, tímida. Por pouco a noite se resumia a isso mas, então, vieram outras coisas, música na verdade.
Ah, vai ter um show da banda de meu irmão, mês que vem, no armazém 14.
Falando em música, hoje eu passei minha manhã tocando guitarra. Uma música, com uma pegada punk (três notas, hehe) que eu estou fazendo.
Apesar disso tudo eu acordei meio deprimido, acho que a culpa é de ontem quando eu estava razoavelmente mal. A culpa de tudo que acontece deve ser de ontem. Talvez, se não existisse o "ontem" o mundo seria um lugar melhor, quem sabe.
Uma hora, quando eu estiver mais motivado, eu falo mais sobre o ontem.

Eu estou com um pouco de sono, afinal, eu não tenho dormido muito bem ultimamente.

11 de janeiro de 2010

Conexão

Minha mente é um vazio.
Talvez seja errado dizer isso,
minha mente é um vazio,
mas quem se importa.
Minha mente é um vazio;
talvez eu devesse dizer
minha mente está vazia
mas, desde quando mentes são potes?

Minha mente está vazia,
talvez esteja melhor.
Minha mente está vazia
mas, isso já é mentira!
Minha mente estar vazia
como poderia, se a encho para depois esvaziar neste papel sujo?
Minha mente estar vazia
esta agora é a mentira.

Minha vida é uma mentira.
Agora sim, digo verdades.
Um amor de verdade,
uma mentira para toda a vida.
Já cansei de escrever.
Outra verdade.

6 de janeiro de 2010

poesia

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Acho que eu entendo o Carlos.


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18 de novembro de 2009

E pensando em conquistar...

Há formas e formas de se investir em uma garota.
Tem um amigo meu que é super amigo de uma outra amiga minha. Eles não se separam. Os amigos que andam com eles podem mudar com o tempo, os lugares e as piadas podem mudar, mas eles dois sempre estão lá juntos. Eu mesmo já brinquei dizendo a ela que quem estará ao seu lado quando ela for velha não será o marido, será ele... É claro que minha mente malévola não conseguiria conceber tão firme amizade sem nenhum interesse da parte do amigo, e acabei conseguindo obter uma confissão que, claro, tinha como requisito o segredo. Ele se aproximou e esta bela e longa amizade, que já deve durar uma dezena de anos, teve origem no interesse de um menino por uma menina.
Para clarear as idéias, devo mencionar que creio que todo mundo é interesseiro, onde estou alargando o sentido para o abstrato além do concreto. Uma amizade entre um homem e uma mulher é um evento, portanto, que não escapa desta conjectura, e como sou do sexo masculino, não conseguiria pensar nos motivos da minha amiga.
Eu nunca vi a aproximação e o "fazer amizade" como uma boa alternativa de conquista de uma mulher e isto nunca fez o meu feitio, mas estou sendo forçado a considerar tal opção nas coisas que meus olhos têm visto. Grosseiramente falando, trago situações na cuca que descrevem aplicação da manobra.
Para evitar falar pelos cotovelos, se já não o fiz, vou encerrar por aqui. Levanto a bola pra depois eu mesmo refletir melhor a respeito de amizade entre homem e mulher (que divide a opinião de muitos amigos meus) e sobre esta forma de conquistar uma boa companheira.
Como meu blog permanece pouco visitado, creio que continuo um homem de palavra.