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30 de novembro de 2011

Adágio

...
-Prólogo-

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-Capítulo 1-

Ela não conseguia dormir.
Pensava no dia, como tinha sido;
Pensava no ontem, o que estava errado;
Pensava no amanhã, nas tarefas urgentes.

Pensava também no namorado;
Pensava na família, no afilhado
Que quase nunca tinha consigo,
Mas havia algo na sua mente.

Estava, enfim, perturbada.
Tocavam gotas no fundo da pia
Por isto, a coitada não dormia
Permanecendo pensando acordada.

-Capítulo 2-

Seu salão era o de cima
Uma estante, um armário gigante
Uma mesa, uma escrivaninha
E um terno sempre elegante.

O relógio corria mais rápido
Do teto, acolhia todo o ambiente
Com um som bastante envolvente
Mas o tic-tac deixava-o pálido

Era o silêncio que havia no salão
Som nenhum, outro, entrava.
Um medo imenso de solidão
E do tempo que o relógio contava.

-Capítulo 3-

Na sala branca, com pessoas brancas
Deitado sobre o leito de morte
Pensava a respeito de suas sortes
E de como costumavam ser fracas.

Havia uma máquina no canto
Mostrando o batimento de seu peito
Parecia que tudo estava direito
No entanto, sentiu um enorme desalento

Levantou-se do leito, pegou um manto.
De branco, cruzou o corredor do hospital
Não dava para ver se estava mal,
Mas no final havia um anjo o esperando.
...

17 de março de 2011

Sozinhos (parte 6)

...
-- Cheguei em casa ontem e finalmente bebi Jurubeba.
-- Foi mesmo, cara? Minha tia se acidentou antes do carnaval, bebeu muito.
-- Você sabe, né? Estava a um tempão querendo experimentar...
-- Ela saiu experimentando tudo e a mistura não deu muito certo.
-- Foi presente de Israel, mas guardei para uma ocasião mais própria.
-- Israel nem apareceu para dar uma força a ela no hospital.
-- Fuleragem, hein? Mas dizem que Jurubeba foi a bebida deste carnaval.
-- Hum... deve ter sido. Minha tia teve que passar por cirurgia.
-- Bem, eu não sei. Sei que bebi e achei até boazinha.
-- Beleza cabra, a gente se fala por ai.
...

6 de janeiro de 2011

Momento diário

Era uma segunda-feira e o trabalho não ia bem. Por mais que eu tentasse as palavras não fluiam e o pensamento estava preso em apenas uma idéia, a vida está acontecendo lá fora! Esse é o tipo de pensamento pequeno que pessoas pequenas têm quando suas vidas não bem. Eu nunca quis ser um grande homem. Minha vida não vai bem.

As pessoas falavam coisas pelo msn. Tudo fica mais fácil de se dizer quando não se têm olhos perseguindo os seus. Não, estou sem dinheiro pra beber hoje. Uma conta e um gráfico, era tudo que eu precisava mas, tive que me contentar com um ou dois cigarros.

Encontrei um amigo. Agora sim estava começando a falar minha língua. Conversamos algum tempo e, quando estava para voltar ao trabalho ele recebe uma ligação, feliz aniversário. Opa, é teu aniversário? Parabéns.

Eles marcaram de ir ver um filme no cinema, ele me chamou, eu fui. Pessoal legal as meninas, quatro ao todo. Conversamos por algum tempo, comemos alguma coisa de um restaurante perto do cinema e desistimos de ver o filme, ia terminar tarde pras meninas. Um pequeno detalhe, as "meninas" eram todas mais velhas que eu! Decidimos ver o filme, elas iam embora e eu ia assistir com meu amigo, desistimos de ver o filme que nós, homens, queríamos, as meninas decidiram ficar. Vimos o filme que elas queriam, ruim com alguns momentos engraçados. Comédia nacional.

Quando todos foram embora e eu estava sozinho novamente decidi acender um cigarro. Podia esperar o último ônibus passar pra ir pra casa. Ele passou e foi embora me deixando sentado na parada, terminando meu cigarro. Fui beber, bebi, três cervejas, enquanto esperava a vida passar e me encontrar no meio do caminho. Tinha esse cara e essas duas meninas e eles estavam conversando. Na falta do que fazer, escutei a conversa deles. Gente metida, burgueses. Se eu chegar pintando de ator agarro fácil a galega, a que parecia ser mais fútil. Mas o outro carinha queria ela. Fodam-se eles, vou ficar com minha cerveja hoje.

Enquanto esperava o ônibus chegar vi dois viados e duas viadas. Os viados deram em cima, mandei eles tentarem na próxima parada. Ironias da vida, quando as mulheres que tinham me deixam, e eram algumas, aparecem viados. Foda-se a vida e fodam-se os viados. Sei que eles querem isso mas, não comigo.

14 de setembro de 2010

Tarde nublada

Eu vi o sol, mas só o vi ontem. Ele sorria pra mim e dizia "hoje vai ser um bom dia."
E ontem nem foi tão bom assim.
Hoje ele se escondeu atrás de nuvens pesadas de chuva. Não me disse nada nem me fez esperar nada.
E hoje o dia está sereno e tranquilo.
Mas não é o dia que eu queria.
Senti gotas de chuva subindo por minhas calças, se esgueirando entre as dobras, tentando me esfriar.
Senti o vento frio no rosto, cortando a pele e rasgando a alma.
Me escondi entre paredes grossas e seguras mas a janela de vidro não me deixa esquecer,
chove lá fora!

31 de agosto de 2010

A noite da carne

Andei por ruas escuras e desertas onde a multidão
dançava freneticamente
Corpos movendo-se numa coordenação aleatória
Mentes encontrando-se nas pupilas e vibrando juntas
através dos corpos alucinados
Idéias ressoando nos olhares psicóticos dos casais dançarinos


Andei no silêncio da noite onde o pio da coruja era abafado
pelo som doentio de músicas sem sentido
O ar gritando no ouvido ruídos insanos
A pressão explodindo ao redor, prendendo, aprisionando
A música convidando a enlouquecer


Andei por ruas sujas e fétidas
Onde o cheiro da podridão se misturava ao gosto suave
das nucas perfumadas
O ar impregnado com corpos chocando e espalhando feromônios
Sujeira sendo espalhadas pelos pés excitados e incontroláveis


Andei por ruas frias onde o calor dos corpos alheios fervia, queimava
Corpos sincronizando seus batimentos, dançando
a mesma música sem sequer estar a ouvi-la
Corpos tentando tornar-se um. Uno, com o cosmo
uno com a vida, uno entre si
Mentes tocando umas as outras, acariciando o ego, excitando


Andei por lugares onde cada um fazia sua própria música
e espalhava pelo ar
Onde os pés ritmados perdiam-se por entre bueiros podres
e dançavam entre a sujeira
Andei por lugares onde o tato era o único sentido usado,
os outros eram ignorados
Andei pelo meio da multidão enlouquecida e me misturei
Me contagiei e virei um ponto no meio daquelas ruas

25 de agosto de 2010

Ontem à noite

Ontem eu vi a Lua.
Estava cercada pelas copas das árvores
e por um telhado de amianto.
Eram seis horas, a hora do crepúsculo e da saudade.
A Lua estava cheia e bela.
A Lua estava cheia e solitária no céu nublado.

26 de maio de 2009

Sozinhos (parte 5)

Eu estou cheia disso tudo!
Minha mãe é insuportável, minha irmã está ficando igualzinha a ela. Depois que a mamãe soube que a vovó estava passando bem de vida resolveu se instalar na casa dela. Moramos de favor na casa da mãe da minha mãe, vê se pode? Eu queria poder sair de casa agora mesmo e me virar sozinha, com minha organização, com o meu jeito em tudo e não ficando ouvindo desaforos da minha mãe. Aiii quando este dia chegar! Serei feliz...
Realmente eu não entendo: minha vó e eu fazemos mais da metade dos serviçoes domésticos enquanto que minha mãe e a bonitinha da maninha ficam vendo televisão ou fofocando com a vizinha. Esta semana fiquei sabendo que a maninha pode desistir de ano no colégio: mamãe só deu uns gritinhos com ela e depois se acalmou: será que é só a filha mais velha que se lasca? Se eu tivesse feito isto no meu tempo tenho certeza que mamãe me deserdava! Sem contar que, de horas em horas, ela passa na minha cara que eu tenho que trabalhar, que o dinheiro do meu pai não dá pra tudo e que só estamos vivendo bem porque estamos na casa da vovó...
A vovó! Não entendo ela: antigamente todas falávamos bem direitinho com a vovó por ela ser tão velhinha e ser a dona da casa, mas com o tempo ela se tornou uma empregada como eu, faz as tarefas mais difíceis, quando eu não vejo, sem ao menos murmurar e faz todos os gostos daquelas parasitas. Ela entristece quando mamãe reclama comigo e vai fazer as tarefas se eu deixar de fazê-las, assim nunca posso deixar de fazer. Mamãe é cruel o bastante para saber disto e usar para conter qualquer rebeldia minha. Ahhhh! Que saco! Me sinto numa teia da aranha mais sanguessuga que poderia haver!
Em casa só posso conversar direito com a vovó. Já enchi o saco das outras duas e por mim estaria em outra cidade vivendo minha vida... A vovó é tão paciente, tão meiga, tão linda! Não tem como não se acalmar ao lado dela, sabe? Ela é um anjo na minha vida. Mas eu acho que o bem não deveria ficar servindo de empregado para o mal sabe? Será que eu estou errada? Porque as coisas são assim? Meu amigo disse que o bem não serve o mal, mas são as pessoas boas que não sabem se impor para os oportunistas, ele chamou de bondade ignorante, sei lá...
Um dia perguntei para a vovó por quê ela aguentava viver com um bando de mulheres desocupadas que só viviam parasitando na vida dela, tomando conta da sua maravilhosa casa, de sua renda pessoal, de sua vida enfim... Eu sei ainda que a vida dela com a mamãe nunca foi da mais santíssima paz não: elas sempre brigaram muito, acho que até mais de como eu brigo com minha mãe hoje. A resposta dela foi simples: "Sem vocês, minha querida, eu não viveria..."
Eu ainda não entendi o que isto quer dizer, mas tenho impressão que é melhor ficar sem saber...

27 de fevereiro de 2008

Sozinhos (Parte 4)

Ele era um rapaz inteligente e agradável embora ultimamente andava reclamando muito das coisas. De fato os amigos deixaram de falar com ele, sua família está impossível e o trabalho está insuportável. Coisas boas e duradouras já aconteceram em sua vida e a namorada estava sempre ao lado, resistindo firme e forte com ele, mas só isto não era suficiente. A vida tinha que mudar de alguma maneira.
Acordava e reclamava da família: nada estava certo, no lugar, na hora, na medida. No trabalho chegava resmungando: muita tarefa, pouco tempo, companheiros lerdos e desinteressados no serviço. Depois a namorada vinha e lhe ajudava a desabafar toda a mágoa daquele dia infernal. Ela, porém, ia cansando e eram agora tristes os seus encontros, presos no pensamento fixo e pesado desta conversa rotineira. Ela, enfim, resolveu reclamar também: e houve briga! Ambos para cada lado, mas se amavam muito para deixarem de se ver por iste motivo. Tudo o que a menina desejava era que ele deixasse um pouco a tensão e as reclamações de lado e aproveitasse os momentos deles juntos para que pudessem ser plenos.
O que a briga lhe rendeu, como sugestão da menina, foi a noção de que toda aquela situação estava sendo causada por ele mesmo e que tanta mágoa e tantas reclamações não estavam fazendo bem a ele ou a ninguém próximo: afastava os amigos, não ajudava na situação em casa nem no trabalho e ainda por cima atrapalhava a felicidade de um namoro tão sincero e sólido. Enfim, em momento de ternura inigualável cujo preparo para as pazes era primordial objetivo do garoto, ele resolve confessar para a parceira de sua jornada a sua descoberta íntima:
-- É isto! Eu sou uma merda! Sou orgulhoso e quero tudo perfeito. Não vejo o que os outros trazem de bom para mim, sou um cego para os meus amigos. Tudo o que faço não presta e acho que só estrago nosso amor. Não valho a pena e estou acabando com a minha vida! Estou sendo desagradável a todos e não consigo mudar, sou assim e pronto! O que eu posso fazer? Não sou forte o suficiente para saber lidar com esta situação tensa e difícil e sou um fraco gritando com todos por ai! Sou uma pessoa horrível.
Ela, mesmo triste, continuou com ele. Fazer o quê? Ficar sozinha?

23 de agosto de 2007

Sozinhos (parte 3)

Ah! Linda menina, que fizeste neste tempo em que me ausentei? Naquele tempo eras ingênua, doce e sensível aos sentimentos alheios. Não estavas preocupada em seres igual aos outros e almejavas, ao contrário, justamente ser especial. Amavas um e muitos outros te desejavam.
O tempo passou e não soubeste superar aquele abandono! Entendo que depois de certo tempo sozinha estiveste carente, mas não a ponto de te desvalorizar para um homem que sequer está preocupado contigo! Vejo-te feliz porque foste olhada; e esperas sem fim e sem resoluções quem não te leva a sério. Aceito enquanto estiveres feliz, mas receio que esta felicidade é breve ou demasiada instável: peço que cuides de teus sentimentos.
Quando retorno pra te ver não sinto mais doçura e sensibilidade em tua voz, há, naturalmente, confusão. És igual a qualquer outra dessas garotas que moram ao lado. Não há mais desejos nos outros, pois tu não mais te desejas, esqueceste de ti mesma.

27 de março de 2007

Sozinhos (Parte 2)

Uma frase era o que ela queria ouvir. Mas como ele não disse, ela se foi. Não houve namoro, nem beijo nem adeus. Ele sabia que seria difícil revê-la, ela ainda achava que não, por isso seguiu, com o coração na mão. Não ouviu o que queria.
Ele parou e refletiu no que deveria ter dito: poderia enganar, dizer o que não era verdade, ou ficar com a verdade se esquivando do assunto. Mas se ela fosse uma menina normal, não ficaria com abobrinhas na cabeça dizendo que estava sozinha e que estava sendo abandonada. De fato ela se afastava sempre daqueles que gostavam dela e só dava importância para quem não lhe dava. Assim fica difícil! Só levava a sério críticas, será que elogios suficientes não existiam? E olhe que não lhe faltava quem a elogiasse.
Quando ela sumiu, enfim, restou aos dois a mesma coisa.

28 de fevereiro de 2007

Sozinhos

Até onde eu lembro, essa história começa assim.

Eles estavam de viagem. O homem e a criança já não mais se falavam. O rosto abatido do homem lhe dava mais dez anos do que o normal, mas mesmo assim as várias mechas brancas não lhe retiravam a força física. A criança mal lhe dirigia a palavra. No último posto de gasolina, ela levou um tapa na nunca que fez arrastar a cara no chão. Ainda deitado, ele virou o rosto com raiva para o homem, mas o menino sabia que seria pior fazer alguma coisa. O vento daquela estrada, que deixava o carro todo empoeirado, não fazia esquecer desse último fato; pelo menos isso, já que não lembrava mais por quê estava viajando...