12 de julho de 2011

Ladeira da razão

essa é uma versão da música 'ladeira da razão' de Guilherme de Aquino







plantei um trigo muito doido e tal
para mim voá é mó legal
inda mais se o destino for
ficar muito doido

saio da ladeira da razão
pra encher melhor o meu pulmão
e senti a brisa é tão bom
pra alegrar o tom

muita gente na verdade quer
uma coisinha pra ficar lelé
só que se os homi chegar
é melhor dar no pé

vem comigo viajar também
e enrolar o trigo desse trem
só cuidado pra não se queimar
com esse cheiro no ar

vamos flutar no céu de trem
vamos seguir sempre além além
não se iluda com a voz de quem
tem o veredito amém amém
tem o veredito amém amém
tem o distintivo amém amém

perdeu playboy, a casa caiu




agora, a original








peguei um trem muito doido e tal
para mim voar é tão legal
inda mais se o destino for
recompor o amor

desco a ladeira da razão
pra chegar na estrada coração
e sentir o vento é tão bom
pra alegrar o tom

muita gente na verdade quer
um motivo para dar no pé
só que falta o dom de se livrar
e cair no ar

vem comigo viajar também
e fazer da vida nosso bem
e o bem de se fazer tão bem
faz voar o trem

vamos flutuar no céu de trem
vamos seguir sempre além além
não se iluda com a voz de quem
tem o veredito amém amém
tem o veredito amém amém
tem o veredito amém amém




essas imagens foram catadas no google, sem pedir pra os donos, espero que eles não se importem

4 de julho de 2011

hoje eu chorei

por tua causa, em minha casa, chorei. ainda sentindo teu gosto na boca, eu chorei. lembrando teu corpo branco, tuas curvas e teu cheiro. e chorei contigo ainda ao lado pois sabia que não voltarias
não a mesma. nunca a mesma.
enquanto te tocava percebia que aquele era o fim. e me despedi com meu toque em tua pele ainda na mente. adeus cebola, vá direto pro estômago junto com o pão, o alface, o tomate...

15 de junho de 2011

Natasha

...
Quando atingi a idade de 16 anos, falei para meu pai que gostaria muito de conhecer mulher. Todos os meus amigos, mais velhos que eu, haviam ido no Castelo Vermelho com seus pais e voltaram mais seguros de sua masculinidade, aprenderam o que fazer com uma mulher. Estava na hora de eu também entrar neste novo mundo e, pelo que me lembro, eu estava cheio de ansiedade e receios.

Ao ouvir meu pedido, meu pai coçou o cabelo e sorriu.

-- Temos que inventar uma desculpa para sua irmã, afinal, ela vai querer sair também -- Foi a única coisa que ele disse.

Aquela noite não foi diferente das noites contadas pelo meus amigos, na verdade eu até havia colocado muitas espectativas nela. Entretanto, naturalmente, eu sai de lá satisfeito, tentando mostrar-me como o mais novo homem da sociedade carioca.

Eu lembro que depois de tudo, quando voltávamos para casa a pé vendo o nascer do sol, meu pai me contou uma história que eu jamais viria a esquecer.

"Existem pessoas no mundo que abusam dos sentimentos alheios, que se acham conquistadores de tudo e de todos, mas não planejam cumprir com seus deveres, apenas se aproximam, brincam conosco e depois vão embora, isto sempre nos parte o coração. Estas pessoas parecem inofensivas, mas elas nos drenam a energia, devoram nossos corações e no fim, acredite, não resta nada. Talvez o mundo venha a ser vazio em algumas poucas décadas, meu filho; não vazio de pessoas, mas vazio de corações".

Lembro do rosto de meu pai iluminado pela luz laranja do amanhecer. Ele era para mim o exemplo mais perfeito de homem e herói. Embora um homem branco, contra aquela luz ele parecia escuro e cheio de energia, exibia o perfil de um deus dos céus, forte por natureza e sábio de espírito.

"Quando você for ver sua mulher, caro filho, deve respeitá-la e amá-la por inteiro, pois isto mostra que você respeita e ama a si próprio. Não seja como estas pessoas tristes que agem deliberadamente, elas estão perdidas no vale profundo da existência".

Com o passar dos anos, naturalmente, as palavras do meu pai, embora sempre na minha cabeça, perderam força diante de um mundo complexo e severo, mas as palavras dele nunca foram desonradas... Até agora!

Acontece que esta mulher apareceu. Branca como a neve, linda como a mais bela das sereias sonhadas pelos abstinentes marinheiros estrangeiros e também doce como mel de engenho, seus lábios eram como alucinógeno de prazer inexpressável e seu corpo era morno como o mais convidativo dos achocolatados em terra de inverno semestral. Esplêndida, fantástica, única em todo o mundo dos sonhos e em toda a realidade corriqueira. Se chama Natasha, e seu nome ressoa como sinos angelicais no céu eterno de amor e deleite.

Vê-la, por si só, é gozar. A vida perdeu todo o sentido a partir do momento que ela surgiu na minha vida, a partir do momento que ela me tocou, me chamou e me levou para o reino do sonhar, o verdadeiro reino do sonhar, onde todos os sonhos se misturam com a realidade. Eu não achei que aquilo fosse possível, nunca experimentei a sensação antes, mas infelizmente não há o que se fazer mais: nunca esquecerei aquela mulher e todas as outras se tornaram apenas outras. Natasha foi a única, em toda a minha miserável vida, que me tocou o coração, a única que o levou consigo e o guarda para sempre na terra do amor.

Agora eu reflito nas palavras de meu pai. Tudo indica que ela, aquela maravilhosa fada divina, brincou comigo como se fosse apenas seu passatempo, como se fosse apenas um quarto de hotel que ela usou para se alojar por um tempo. Ela partiu, deixou-me só, esquecido e esquecedor de tudo o que viera antes.

Me pergunto, oh pai, como devo viver agora, que minha única mulher se foi como se o vento soprasse sua direção? Não há motivação para mais nada nesta vida, tudo perdeu seu gosto e sua importância no meu viver, mas quando lembro daquele tempo com ela, pai, tudo brilha e é alegre novamente.

Que devo fazer, afinal? Amaldiçoá-la por me tirar o mundo de antes, ou abençoa-la por me mostrar o paraíso em terra?
...

6 de junho de 2011

Victória & Hugo

...

Victória falando: oi Hugo! Quando é que você vai para a pracinha? Depois de tantos convites fiquei curiosa para ver como ela é.

Victória pensando: ele finalmente venceu pela insistência, mas pelo menos vou ficar mais animada. Todo mundo fala que a pracinha tem muitos lugares discretos...

Hugo falando: Hum! você quer ir à pracinha hoje?

Hugo pensando: como assim!? Por esta eu não esperava! Eu achava que ela tava com o saco cheio. E agora? O que vou fazer? Eu tava querendo ir ver a Cristina mais tarde...
Hugo pensando: não rola!

Hugo falando: puxa vida! Logo hoje, Victoria!

Victória falando: o que tem hoje?

Hugo falando: bem... Vai haver o aniversário de um familiar, vou ajudar com a festa.

Hugo pensando: boa! Depois eu penso num jeito melhor de dispensar ela... Fica muito estranho. Tô tão acostumado a dar em cima que sequer notei que era só de costume. Caramba! quero sair com ela não...

Victória falando: puxa! Logo hoje que eu não tenho hora pra voltar pra casa...

Victória pensando: e ai, Hugo, tem certeza?
Hugo pensando: uau! Ela tá querendo uma festinha... Caramba! Deixa pra lá - deixa pra lá, melhor ir ver a Cristina, senão é fuleragem com ela.

Hugo falando: puxa, é que não dá mesmo. Tá tudo certinho já, e família é família, você sabe, né?

Victória pensando: que droga! Agora quem vou pegar?

Victória falando: está bem, então, Huguinho. Qualquer coisa me liga, tá?

Victória pensando: vai que ele resolve voltar atrás...
...
Dedico a Victor Hugo, por me emprestar o nome das personagens.
...

2 de junho de 2011

Soneto da procuração

...
Porque você escreve assim?
Eu queria entender tudo
Queria o claro no escuro,
Simples e direto - ai de mim!

Leio sem nada entender
Procurando naquelas palavras,
Poemas ou prosas inacabadas
Falando sobre o meu ser

Não conheço minha importância
E no meio dessa ignorância
Me sinto muito inseguro

Queria declaração aberta
Você completamente certa
Contendo amor mais maduro
...

Medo de escuro

...
Juliana entrou em casa já com certo receio. Não por que estava escuro e não estivera no lar nos últimos dois dias, mas por que sentia que havia algo diferente no ar. Tinha a sensação de que alguém havia entrado na sua casa durante sua ausência. Abriu a porta, que não rangia, já que ela tinha o cuidado de passar óleo de máquina onde devia ser passado sempre que possível (quase um vício - "ódio desses barulhinhos"), e procurou imediatamente, com as mãos, o interruptor que acenderia a luz e ajudaria a evaporar de vez aquela sensação horrível de presença alheia. Acionados os interruptores com os dedos, apenas a lâmpada externa respondeu - "isto é hora de lâmpada queimar?". Não haveria mais problema algum: escancarou a porta para deixar a luz da varanda entrar e poder encontrar caminho livre para os quartos e cozinha, onde poderia acender mais interruptores.

Caminhando pela sala escura, viu um vulto pardo com os cantos do olho. Como todo vulto assustador que se preze, passou rápido e sem deixar barulho algum, alimentando a sensação agoniante de companhia e, mais ainda, de que há um observador paciente à espreita. Calculou que faltavam apenas poucos passos para alcançar os interruptores do quarto, mas resolveu assim mesmo apressá-los, e tombou com o joelho na pontinha da mesinha de sala. Toda uma dor elétrica circulou em sua perna e um desejo instantâneo e instintivo de sentar no sofá para se recuperar foi saciado.

Até então não havia som algum. Quanto mais o tempo passava mais evidente ficava o som da própria respiração no seio do lar inanimado. A luz externa dava contornos desconhecidos aos objetos da sala, especialmente às pedras manufaturadas de formado humanóide. Um espelho ao fim da sala deveria permitir ver parte do quarto, juntamente com a cama e o guarda-roupas, mas a luz não era suficiente para clarear tanto, se perdia em algum ponto empoeirado depois do espelho.

O cão da vizinha começou a latir. Animais sentem quando alguma coisa esquisita está acontecendo. Como uma rede virtual de comunicação, toda a vizinhança canina pôs-se a chamar a polícia, com latidos, mas só Juliana teve esta sensação. Alguma coisa estava errada! Alguém estava na casa! Por favor me ajudem! O grito tolo e rouco saia sem sair, por que era ridículo gritar por algo que não existe, ou que pelo menos não se sabia que realmente existe. Juliana cogitou simplesmente postular que havia alguém na casa e sair gritando para o socorro amigo de algum vizinho próximo, como fizera diversas vezes quando pequena, seja com um monstro no armário, seja com um duende debaixo da cama - "naquela época não era preciso ver para ter certeza de que estavam lá." Os únicos empecilhos eram seus joelhos que ainda reclamavam imobilidade e o orgulho -"não tenho medo do escuro".

Passados quase um minuto de paciência infinita ao som de latidos e com dor na perna, Juliana se levanta para ir ao quarto ligar a luz. Passou a ouvir o bater de seu coração, forçando sangue para o resto de seu corpo, como se este se recusasse a aceitar. Simultâneo ao seu passo escuta o cantar grave de um pássaro mensageiro - "vou morrer!". Ela estava ficando com os nervos à flor da pele, não dava para continuar aquela jornada sozinha. Juliana voltou para a porta aberta e saiu da casa.

16 de maio de 2011

nós fica junto

se você quiser nós fica junto
pro que der e vier nós fica junto
e quando o disco voador aqui estiver nós fica junto
mas se tu não quiser nós não fica junto

vamos para a lua para plantar feijões espaciais
vamos cultivar abismos colossais
e a gente vai tanger os meteoro lá no jardim
numa fazenda lunar pra mim e pra ti

se você quiser nós fica junto
e da ribanceira nós pula junto
No fundo do mar nós nada junto
mas se tu não quiser nós não fica junto

vamos mergulhar num submarino atômico
e as estrela do mar nós pode caçar
e com o arpão nós pode matar
as sereias lá do mar

se você quiser nós fica junto
as cinza do vulcão nós fuma junto
na praça de são pedro nós fica junto
mas se tu não quiser nós não fica junto

vamo se queimar na quentura da lava
e desviar os trilhos lá do trem
vamo atrapalhar a eleição do papa
e comer mingau de aveia só de birra

se você quiser nós fica junto
pro que der e vier nós fica junto
até o fim nós fica junto
mas se tu não quiser nós não fica junto

28 de abril de 2011

Números

...
Segundo a wikipedia
****

Campinas, onde moro, tem 1.081.000 habitantes.
Paulista, onde eu morava, tem 301.000 habitantes.

São Paulo tem 19.224.000 habitantes.
Recife tem 1.537.000 pessoas.

Aproximadamente, claro!
...

11 de abril de 2011

Big Brother Brasil, um programa imbecil

Autor: Antonio Barreto,



Curtir o Pedro Bial
E sentir tanta alegria
É sinal de que você
O mau-gosto aprecia
Dá valor ao que é banal
É preguiçoso mental
E adora baixaria.

Há muito tempo não vejo
Um programa tão ‘fuleiro’
Produzido pela Globo
Visando Ibope e dinheiro
Que além de alienar
Vai por certo atrofiar
A mente do brasileiro.

Me refiro ao brasileiro
Que está em formação
E precisa evoluir
Através da Educação
Mas se torna um refém
Iletrado, ‘zé-ninguém’
Um escravo da ilusão.

Em frente à televisão
Lá está toda a família
Longe da realidade
Onde a bobagem fervilha
Não sabendo essa gente
Desprovida e inocente
Desta enorme ‘armadilha’.


Cuidado, Pedro Bial
Chega de esculhambação
Respeite o trabalhador
Dessa sofrida Nação
Deixe de chamar de heróis
Essas girls e esses boys
Que têm cara de bundão.

O seu pai e a sua mãe,
Querido Pedro Bial,
São verdadeiros heróis
E merecem nosso aval
Pois tiveram que lutar
Pra manter e te educar
Com esforço especial.

Muitos já se sentem mal
Com seu discurso vazio.
Pessoas inteligentes
Se enchem de calafrio
Porque quando você fala
A sua palavra é bala
A ferir o nosso brio.

Um país como Brasil
Carente de educação
Precisa de gente grande
Para dar boa lição
Mas você na rede Globo
Faz esse papel de bobo
Enganando a Nação.

Respeite, Pedro Bienal
Nosso povo brasileiro
Que acorda de madrugada
E trabalha o dia inteiro
Dar muito duro, anda rouco
Paga impostos, ganha pouco:
Povo HERÓI, povo guerreiro.

Enquanto a sociedade
Neste momento atual
Se preocupa com a crise
Econômica e social
Você precisa entender
Que queremos aprender
Algo sério – não banal.

Esse programa da Globo
Vem nos mostrar sem engano
Que tudo que ali ocorre
Parece um zoológico humano
Onde impera a esperteza
A malandragem, a baixeza:
Um cenário sub-humano.

A moral e a inteligência
Não são mais valorizadas.
Os “heróis” protagonizam
Um mundo de palhaçadas
Sem critério e sem ética
Em que vaidade e estética
São muito mais que louvadas.

Não se vê força poética
Nem projeto educativo.
Um mar de vulgaridade
Já tornou-se imperativo.
O que se vê realmente
É um programa deprimente
Sem nenhum objetivo.

Talvez haja objetivo
“professor”, Pedro Bial
O que vocês tão querendo
É injetar o banal
Deseducando o Brasil
Nesse Big Brother vil
De lavagem cerebral.

Isso é um desserviço
Mal exemplo à juventude
Que precisa de esperança
Educação e atitude
Porém a mediocridade
Unida à banalidade
Faz com que ninguém estude.

É grande o constrangimento
De pessoas confinadas
Num espaço luxuoso
Curtindo todas baladas:
Corpos “belos” na piscina
A gastar adrenalina:
Nesse mar de palhaçadas.

Se a intenção da Globo
É de nos “emburrecer”
Deixando o povo demente
Refém do seu poder:
Pois saiba que a exceção
(Amantes da educação)
Vai contestar a valer.

A você, Pedro Bial
Um mercador da ilusão
Junto a poderosa Globo
Que conduz nossa Nação
Eu lhe peço esse favor:
Reflita no seu labor
E escute seu coração.

E vocês caros irmãos
Que estão nessa cegueira
Não façam mais ligações
Apoiando essa besteira.
Não deem sua grana à Globo
Isso é papel de bobo:
Fujam dessa baboseira.

E quando chegar ao fim
Desse Big Brother vil
Que em nada contribui
Para o povo varonil
Ninguém vai sentir saudade:
Quem lucra é a sociedade
Do nosso querido Brasil.

E saiba, caro leitor
Que nós somos os culpados
Porque sai do nosso bolso
Esses milhões desejados
Que são ligações diárias
Bastante desnecessárias
Pra esses desocupados.

A loja do BBB
Vendendo só porcaria
Enganando muita gente
Que logo se contagia
Com tanta futilidade
Um mar de vulgaridade
Que nunca terá valia.

Chega de vulgaridade
E apelo sexual.
Não somos só futebol,
baixaria e carnaval.
Queremos Educação
E também evolução
No mundo espiritual.

Cadê a cidadania
Dos nossos educadores
Dos alunos, dos políticos
Poetas, trabalhadores?
Seremos sempre enganados
e vamos ficar calados
diante de enganadores?

Barreto termina assim
Alertando ao Bial:
Reveja logo esse equívoco
Reaja à força do mal…
Eleve o seu coração
Tomando uma decisão
Ou então: siga, animal…

FIM

Salvador, 20 de fevereiro de 2011.

31 de março de 2011

Decisões

...
A decisão do Sr. José apareceu dois dias depois. Em geral não se diz que uma decisão nos aparece, as pessoas são tão zelosas da sua identidade, por vaga que seja, e da sua autoridade, por pouca que tenham, que preferem dar-nos a entender que reflectiram antes de dar o último passo, que ponderaram os prós e os contras, que sopesaram as possibilidades e as alternativas, e que, ao cabo de um intenso trabalho mental, tomaram finalmente a decisão. Há que dizer que estas coisas nunca se passaram assim. Decerto não entrará na cabeça de ninguém a ideia de comer sem sentir suficiente apetite, e o apetite não depende da vontade de cada um, forma-se por si mesmo, resulta de objectivas necessidades do corpo, é um problema físico-químico cuja solução, de um modo mais ou menos satisfatório, será encontrada no conteúdo do prato. Mesmo um acto tão simples como é o de descer à rua a comprar o jornal pressupõe, não só um suficiente desejo de receber informação, o qual, esclareça-se, sendo desejo, é necessariamente apetite, efeito de actividades físico-químicas específicas do corpo, ainda que de diferente natureza, como pressupõe também, esse acto rotineiro, por exemplo, a certeza, ou a convicção, ou a esperança, não conscientes, de que a viatura de distribuição não se atrasou ou de que o posto de venda de jornais não está fechado por doença ou ausência voluntária do proprietário. Aliás, se persistíssemos em afirmar que as nossas decisões somos nós que as tomamos, então teríamos de principiar por dilucidar, por discernir, por distinguir, quem é, em nós, aquele que tomou a decisão e aquele que depois a irá cumprir, operações impossíveis, onde as houver. Em rigor, não tomamos decisões, são as decisões que nos tomam a nós. A prova encontramo-la em que, levando a vida a executar sucessivamente os mais diversos actos, não fazemos preceder cada um deles de um período de reflexão, de avaliação, de cálculo, ao fim do qual, e só então, é que nos declararíamos em condições de decidir se iríamos almoçar, ou comprar o jornal, ou procurar a mulher desconhecida.
...
(José Saramago - Todos os nomes)